24 fevereiro 2012

Diário de uma vendedora em part-time {2}

Assim que chegamos na loja para trabalhar [seja no turno da abertura, no intermédio ou no fecho], a primeira coisa que fazemos é repor a roupa que foi vendida no dia anterior. Para isso temos uma listagem do que foi vendido e essa listagem é separada por secções. Cada vendedora tira a sua secção [no meu caso, acessórios e complementos] e vai ao armazém buscar as peças da lista.

Fui ao armazém, voltei com as peças e estava atrás do balcão a alarmar as peças e a pôr os preços. Como a maioria das peças era de saldo, tinha que confirmar o preço numa máquina e depois marcar com a etiqueta vermelha do preço "de saldo".

Estava distraída a fazer isso quando uma colega aparece e diz para eu ter a máxima atenção com as peças de saldos porque andavam clientes a "mudar" as etiquetas de forma a levarem peças de nova colecção com preço de saldos.

Ou seja, quando vão aos provadores as clientes trocam as etiquetas das peças [colocam etiquetas de saldos em peças da nova colecção] e quando chegam ao balcão são confrontadas com o facto [as vendedoras dizem: desculpe, isto está mal marcado. Este artigo não está em saldos]. E aí dá uma barracada porque elas dizem que já encontraram a peça marcada ao preço dos saldos e exigem pagar o preço mais barato. Dizem que as vendedoras marcaram mal a peça e de acordo com a DECO, o cliente tem o direito de pagar apenas o que está marcado [seja erro da vendedora ou não].

Resultado: Acabam mesmo por levar a peça da nova colecção com 70% de desconto. Bonito.
A minha gerente está a arrancar os cabelos com este problema e até agora não encontrou nenhuma solução definitiva. Só na semana passada a loja teve um prejuízo de quase 400 euros em descontos e artigos mal marcados. E o pior é que há câmeras por todos os lados e não há maneira de apanhar as clientes a trocarem as etiquetas [elas não são parvas, fazem isso nos provadores onde, obviamente, não há câmeras].

Provisoriamente adoptámos a seguinte medida: A pessoa que estiver de plantão nos provadores [geralmente é ao calhas...e  vai rodando entre todas] tem a obrigação de olhar as etiquetas de todas as peças que a cliente leva para experimentar. E no final, quando a cliente sai do provador, torna-se a ver as etiquetas de forma a verificar se há etiquetas trocadas.

Pontos fracos: Demora um certo tempo e a fila para experimentar roupa aumenta. E para além disso, requer que a vendedora saiba distinguir o que é saldos e o que é nova colecção  [normalmente é fácil, mas há peças de meia-estação que baralham tudo].

Fiquei um bocadinho chocada com esta técnica, confesso. Com que então andam a fazer aldrabices destas por causa de roupa/sapatos? Não acho normal. As pessoas arrumam jeito para tudo e mais alguma coisa. Estou abismada. É que na minha concepção, não há assim tanta diferença entre trocar etiquetas e roubar uma peça. Para mim é roubo na mesma [ora, se uma camisola custa 30€ e a cliente mete uma etiqueta de 10€, a meu ver, está a roubar 20€ à loja] e acho incrível ver a que ponto as pessoas chegam para andarem bem vestidas e fashion.

Claro que um bocadinho disso é em consequência da tal sociedade consumista e materialista em que vivemos [onde as pessoas querem sempre ostentar mais e mais], onde somos incutidos desde pequeninos a querermos sempre tudo e mais alguma coisa. Talvez eu não seja a pessoa mais indicada para falar sobre tal tema mas parecendo que não, sei distinguir a linha ténue entre o que eu quero e o que eu realmente preciso.

Podemos sempre tentar pôr a culpa na sociedade, no consumismo, na crise, na Troika... mas meus amigos, não há justificativa possível para terem uma atitude destas. Estamos a falar de roupa, de tecidos, de merdas que não são essenciais. Se fosse comida, apesar de também não ser correcto, ainda era compreensível. Agora roupa? Não, não. Isso para mim é pura falta de carácter. E carácter, senhores, é daquelas coisas que ou se tem ou então estamos mal.
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9 comentários

  1. credo! Nem sabia que se fazia isso! ao que as pessoas chegam!

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  2. Solução fácil: só poder levar para o provador peças com saldo ou de nova coleção. Nunca misturadas. Primeiro leva as de saldo, experimenta, devolve e depois é que leva as de nova coleção.

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  3. @mini: Uma colega também teve essa idéia mas as pessoas queixavam imenso que tinham que despir, experimentar as peças de saldo, voltar a vestir a roupa, sair do provador para buscar as peças da nova colecção e depois voltar a despir tudo... Ainda ficámos umas duas horinhas neste ritmo mas não dava certo.

    Amanhã temos uma reunião para definirmos estratégias. Coisa bonita.

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  4. também tenho um part time numa loja, faço 1 ano este m~es, e é o meu último mês. Vais ver coisas impressionantes, métodos de roubo, trafulhices.. uma tristeza :s

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  5. não fazia ideia que as pessoas chegassem a esse ponto, é incrível o descaramento...

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  6. @mrfashionmood: Não há palavras para descrever a que ponto as pessoas chegam, realmente!

    @Sofia: Pois, para quem está há um ano já deves ter visto de tudo. Eu estou lá há pouco mais de um mês e a cada dia descubro uma coisa nova. Algumas boas, outras nem tanto.

    @Sara Silva: Também fiquei em choque quando descobri o tipo de artimanha que usam.

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