27 fevereiro 2012

Diário de uma vendedora em part-time {3}

Ontem estive  a trabalhar no turno do fecho [das 14h às 23h] e quando vi que o movimento estava a abrandar [lá pelas 21h] fui para armazém arrumar umas caixas com a nova colecção já que cada uma de nós é responsável por uma secção e eu queria deixar a minha parte impecável.

Enquanto estou a arrumar o armazém começo a conversar com a senhora da limpeza [ela é que puxou o assunto e eu que gosto pouco de uma conversa...] enquanto vou dobrando e arrumando os lenços, fios e bijutarias mil. Achei engraçado porque nas outras lojas onde trabalhei [Zara e afins] as empregadas de limpeza usavam uma farda tipo bata e tinham mesmo ar de quem trabalhavam com limpezas.

Já esta senhora era completamente diferente. Usava calças justinhas, botas da Aldo [vocês sabem que eu reparo sempre nos detalhes...], unhas grandes pintadas de vermelho e um cabelo impecável. Percebi logo que ela era diferente. Ela perguntou-me se eu estava a gostar e eu perguntei-lhe se ela estava há muito tempo na loja.

Respondeu-me que não, que trabalhava nas limpezas há coisa de 3 meses. E que era, pasmem-se, advogada! O meu queixo caiu quando ouvi isso. Fiz uma cara de espanto [não consigo disfarçar muito bem...] e ela lá contou-me que trabalhava para um escritório de advogados que, adivinhem?, fechou no final do ano passado e ela não teve direito a subsídio-desemprego... Como tem um casal de filhos para sustentar [e separou-se do marido], teve que arranjar alternativas para viver. Então durante o dia trabalha a full time em uma Perfumaria e à noite faz limpezas em lojas do centro comercial. E anda sempre toda arrumada porque vai directo da perfumaria para as limpezas e diz que a filha [com 12 anos] tem vergonha e não gosta que ela ande nas limpezas [razão pela qual ela não usa a farda/avental].

Enquanto ela me contava a história [e eu organizava os fios e os anéis], fui percebendo o verdadeiro estado em que o país mergulhou. Não gosto de contar histórias tristes mas ultimamente tenho ouvido cada coisa que até fico com os olhos molhados. E só consigo pensar: até quando? Até quando as pessoas vão aguentar? Até quando?

P.S: Sempre que falo com familiares no Rio de Janeiro, a pergunta é a mesma: Mas o que vocês continuam fazendo aí?. E eu respondo sempre a mesma coisa: Nem vou explicar... porque vocês não vão perceber. Portugal é o meu país há 8 anos. Foi onde eu construí tudo: licenciatura, mestrado, tranquilidade, emprego, o M., que é o amor da minha vida... Desistir ainda não é uma opção. Ainda. [mas até quando?]
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5 comentários

  1. É triste de facto :8 é como dizes, há com cada caso que nos faz pensar que os jovens deste país não duram aqui muito tempo...

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  2. é verdade, pouco a pouco vamo-nos apercebendo de grandes sacrifícios que as pessoas são obrigadas a fazer por causa do estado em que o nosso país está, e infelizmente acho que isto ainda agora está a começar...
    eu por cá vou-me aguentando, faltam-me 2 anos de licenciatura pela frente e queria ver se quando a acabasse, isto já estava um bocadinho melhor, porque emigrar é uma coisa que não me sai da cabeça :s

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  3. Infelizmente Portugal está assim e já nada me espanta!!
    E sair de daqui é uma opção para mim.

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  4. Agora invertem-se os papéis e muitos portugueses estão a emigrar para o Brasil...
    Eu estou como tu..desistir nao é uma opção ainda...mas..ja faltou mais!
    bjs*

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  5. @Sofia: Escuto e vejo tanta coisa que acabo por pensar que daqui a 5 anos dificilmente estarei por cá. E o que eu gostava de continuar na minha lisboa!

    @Sara Silva: Para nós, que estudamos, o cenário é terrível. Vi imensos amigos que foram para Erasmus e acabaram ficando por lá {Holanda, Alemanha, Espanha...}, enquanto outros foram fazer mestrado noutros países e não querem voltar. Porque não há trabalho especializado por cá. E trabalhar em sub-empregos depois de termos estudado 5 ou 6 anos... é dose.

    @Luka: A coisa está mal, é verdade. Mas eu tenho esperança e ainda acredito que possa melhorar.

    @mrfashionmood: Pois, agora o fluxo inverteu-se. Eu queria muito continuar cá mas se perceber que a minha família está aflita financeiramente... não vou querer sacrificá-los e vou optar por voltar.

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