29 maio 2012

O lugar mais especial do mundo.

Se me perguntarem qual foi o momento mais especial das minhas férias no Rio de Janeiro, a resposta com certeza será: a minha ida à Campos, cidade do interior carioca {famosa pelo petróleo}. A parte árabe da minha família {o lado paterno, portanto} sempre viveu em Campos, por isso, quando os meus pais casaram-se, a minha mãe mudou-se de vez para lá. Até os meus três anos, vivi sempre na cidade do petróleo. Quando os meus pais divorciaram-se eu, o P. e mamãe voltamos para o Rio e eu passei a ir à Campos apenas nas férias.

Em Campos eu ficava sempre na casa da minha avó paterna e era uma delícia. Eu andava descalça, suja de barro, de lama, eu subia em árvores, pescava, fazia fogueiras... Completamente diferente da vida protegida que eu levava no Rio: vivia em um apartamento, a minha mãe morria de medo de me deixar brincar na rua com os meus amigos, a carrinha do colégio ia buscar-me à porta de casa, enfim... nada se comparava à liberdade que eu experimentava em Campos.

Lembro-me de passar as férias grandes {que no Brasil são em Dezembro/Janeiro} sempre na minha cidadezinha. A minha avó fazia-me as vontades todas, todinhas... era chuvisco ao pequeno-almoço, chuvisco ao jantar e sempre que me apetecesse. Infelizmente, ela faleceu de forma estúpida quando eu tinha oito anos e depois disso, a cidadezinha perdeu muito do seu brilho. O meu pai mudou-se para outra cidade, os meus tios venderam a vivenda da minha avó {ainda hoje acho que tomaram a decisão errada} e eu fiquei uns bons anos sem pisar em Campos novamente.

Como ainda tenho três tias que continuam a viver em Campos decidi que era chegado o momento de voltar à essa cidade que tantas recordações boas me trouxe. Fiquei uma semana por lá, na casa da minha tia R.
Um dia antes de voltar para o Rio pedi à minha tia para me levar à antiga casa da minha avó. Achei que ela não fosse concordar porque sei o quão ligada ela era àquela casa mas ela disse que sim. Pegámos no carro e fomos até a entrada da avenida principal mas como passaram-se mais de quinze anos, muita coisa havia mudado e as ruas pareciam todas diferentes. Até que vi um letreiro de um cabeleireiro e começaram a vir as tais lembranças em flash: eu, com o meu cabelão até as costas e vovó dizendo "menina, que cabelo de madalena arrependida é esse? Isso deve ser moda no Rio mas aqui isso é uma esculhambação. Vamos dar um corte moderno nisso..." e assim que vi o cabeleireiro, lembrei-me: "tia, a rua é essa..."

Eu queria poder exprimir em palavras o que eu senti quando entrei naquela rua. Foi um mix de sentimentos: saudade, alegria, tristeza, uma certa revolta por ela ter morrido de maneira tão idiota. A minha tia estacionou o carro no fim da rua {ela não quis descer e eu respeitei, é claro} e eu fui andando até a casa. A impressão era de que o tempo havia parado naquele lugar. A mesma rua, as mesmas placas, as mesmas casas... nada de novo, tudo como sempre esteve. Até achei, num momento de loucura, que a qualquer momento a minha avó apareceria na rua e diria: "entra, menina, já está tarde e você ainda tem que tomar banho...". 

Os novos donos pintaram o portão exterior de preto {antes era verde escuro}, cobriram com azulejos o que antes era a horta mas havia traços inconfudíveis daquele tempo: a mítica árvore de carambolas continuava onde sempre esteve, os ganchos onde a avó pendurava a rede continuavam no exacto local deixado por ela e aí eu não aguentei: chorei, choreeei, chorei. Um pranto sentido, de saudade por tudo que eu passei naquele sítio. Confesso que queria muito ter entrado na casa e relembrar as divisões de cada cômodo mas isso seria invadir a privacidade dos novos donos e eu tive medo de parecer maluca demais.

Enquanto estava parada em frente ao portão, tentando memorizar cada traço, cada detalhe... {esqueci-me de levar a câmera, que idiota} oiço o barulho do portão da casa ao lado e vejo sair um homem alto, moreno, com uma cicatriz na testa. Não acreditei... Fiquei feita parva a olhar o homem, tentando me lembrar se seria a mesma pessoa da minha infância, quando ele vira-se para mim e abre um sorriso daqueles: "Ei, eu te conheço...." diz ele. Incrédula, arrisquei um: "Francisco?!" e ele se riu: "é, garotinha, você não mudou nada... Não vai me dar um abraço?". Abracei, é claro. Francisco foi o meu amigo inseparável durante todos os verões e perdi o contacto com ele logo após a morte da minha avó, quando a casa foi vendida.

Ele me convidou para ir comer um cachorro-quente à noite {em Campos há barraquinhas de hot dog espalhadas em cada esquina} e pôr a conversa em dia. Estivemos três horas a falar, a rir, a relembrar montes de coisas do passado, foi uma delícia. Ele ficou surpreso quando soube que eu morava em Portugal, eu fiquei espantada por ele ter decidido tirar Direito {ele odiava livros} e no final trocámos mails, facebooks e essas coisinhas todas. Saí de Campos com o coração cheio de lembranças e com a certeza de que fui {e sou} muito feliz naquela terrinha.
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2 comentários

  1. Que lindo. Acreditas que me emocionei ao ler o que escreveste? Decididamente é sempre bom voltar aos lugares onde já fomos felizes.:) Mua mua.

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  2. @Laetitia: Eu também fiquei super emocionada ao escrever o texto... É algo muito, muito especial para mim. Beijinhos :*

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