06 junho 2013

bad hair.

Há dias uma amiga veio jantar cá em casa com a filha pequena e, entre conversas, perguntou-me se a minha irmãzinha tinha sofrido algum tipo de preconceito no colégio onde estuda, por ser estrangeira, já que a filhinha dela, de sete anos, andava a ser gozada num dos maiores colégios da zona e ela já não sabia o que fazer.

Respondi-lhe que não, a Vi já andou em dois colégios (a contar com o que está agora) e felizmente nunca sofreu nenhum tipo de preconceito. Para já, ela alfabetizou-se cá e não tem nem um pingo de sotaque brasileiro (o que enlouquece a minha família no Rio, que não percebe nada do que ela diz) e é branquinha de cabelo liso, ou seja, nada parecida com o biotipo brasileiro.

Essa minha amiga é angolana, mulata e com cabelo encaracolado (e giríssima) e a filha é uma fotocópia da mãe. A questão é que a menina anda num colégio inglês, com putos branquíssimos e miúdas com tranças lisérrimas… E ela, coitadinha, anda numa tristeza sem fim porque diz que os meninos fazem-lhe a vida negra e metem-lhe alcunhas de todo o tipo.

A minha amiga já não sabe para onde se virar, já teve reuniões no colégio, já conversou com a psicóloga e mais um rol de coisas e nada de resolver o problema. Agora a miúda quer porque quer fazer um alisamento definitivo no cabelo. E ela veio perguntar-me o que eu achava.

Ora, não acho nada indicado fazer um tratamento deste tipo numa criança de sete anos. Se nem uma progressiva eu indicaria, quanto mais um alisamento definitivo! Acho que é cedo demais e disse-lhe que o ideal seria fazer um brushing de vez em quando para ver se a animava. Assim que falei isso, a miúda vira-se para mim, com olhinhos de gato do Shrek e exclama: Oh, tia, por favor, alisas-me o cabelo? Pode ser já hoje? Por favor?
Como dizer que não? Bora lá! E aqui tenho que parabenizar a minha digníssima GHD que é A chapinha e deixou o cabelinho dela liso e brilhante como uma seda.No final, quando olhou-se ao espelho, os olhinhos brilharam e abraçou-me: obrigada! Estou linda, até pareço uma princesa…

E eu fiquei a olhar para ela, linda de qualquer jeito, e a pensar como é possível que uma criança de sete anos tenha uma auto estima tão em baixo e passe por tanto deboche e humilhação por ter apenas cabelos encaracolados! Como as crianças conseguem ser cruéis umas para as outras… E assim começa a ser criado um complexo enorme, já desde pequenina. =/

Cá em Portugal não é muito comum mas no Brasil e nos EUA miudinhas de 5 ou 6 anos alisam o cabelo e fazem verdadeiras loucuras (no Brasil, até fazem progressiva com formol!), tudo em prol de serem aceitas pelas "meninas de cabelo bom". Acho um crime. Há até um filme sobre o assunto, que estou a sacar para assistir no fim-de-semana. Fiquei chocada ao ver a dor nos olhinhos da Ju enquanto ela dizia: "as minhas amigas gozam comigo e desenham pontinhos vermelhos na palma da mão para depois encostarem no meu cabelo e fingirem que é sangue..."
Que merda de mundo é esse, onde crianças tão pequenas já possuem corações tão mesquinhos?

Que triste.
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14 comentários

  1. Fiquei chocada Anne :( muito triste mesmo... Que mundo este..
    Beijinho

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  2. Infelizmente e com o rumo que as gerações estão a tomar não me admira que piore e piore :( mas é realmente triste... crianças deviam ser inocentes, mas já no meu tempo havia crueldade que fará agora :(
    Beijinho *

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  3. coitadinha =/ eu fui gozada na escola por causa do cabelo também, porque tinha bastante e fazia muito volume e era selvagem, então fui apelidada de tudo e mais alguma coisa e lembro-me perfeitamente como me fartava de chorar e dizia que queria ter o cabelo liso porque liso é que era bonito =/ Acho que só por volta dos 19 anos é que consegui passar a aceitar e adorar o meu cabelo, apesar de nunca ter feito nada de alisamentos pois não tinha acesso a essas coisas nem a minha mãe deixava (e ainda bem por um lado ehehe). Não sei se é por ter sentido na pele o que custa ser-se gozada anos a fio e posta de parte, mas cada vez que leio histórias assim, fico com um dó enorme e sei bem como isso deixa inseguranças durantes muitos e muitos anos :(

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  4. Olá...
    Gostei muito do teu cantinho...
    Sou nova na blogosfera como blogger mas já cá navego há bastante tempo como leitora...
    Parabéns pelo excelente trabalho que tens feito no teu Blog...
    O meu cantinho é:
    dollhighheels.blogspot.pt
    Se puderes dá uma espreitadela e se gostares segue-me...
    Bjokas
    Bruna

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  5. As crianças são muito verdadeiras e por isso acabam por ser muito cruéis também mas eu penso que advém da educação que têm em casa. Os pais têm de fazer o trabalho de ensinar a "aceitar" quem não é moreno como nós, branquíssimo como nós, quem n tem cabelo como nós e principalmente quem tem deficiências, conheço muitas crianças deficientes descriminadas em escolas. Mas se os próprios pais muitas vezes são preconceituosos como é que as crianças não podem igualmente ser? Som, a maior parte das vezes, aquilo que vemos em casa...

    Quanto ao cabelo da menina eu ADORO!!!!!!!!!!!! Deve dar um trabalhão para cuidar mas é lindíssimo esses caracóis todos são amorosos!

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  6. Olá! Adoro o teu blog e já te sigo há muitoooo tempo. =)

    Pessoalmente adoro o cabelo natural da menina e não mudava nada mas sei que os alisamentos da purah têm uma gama BIO que é indicada para crianças e grávidas..é menos forte que o normal e nem dura tanto tempo..

    Beijinhos**

    Mariana

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  7. É realmente muito triste mas as crianças são mesmo assim, más, mas nem sequer se apercebem. Eu já me senti como a miudinha, porque também sou mulata e cresci num meio onde quase não haviam pessoas negras, e os miúdos da escola gostava de se meter comigo por causa do cabelo. Essas "brincadeiras" ao longo do tempo fazem com que a nossa auto-estima baixe muito e nos sintamos frustradas com o cabelo que temos.
    Ora bem, farta do meu cabelo (também não sabia cuidar bem da textura dele) quando fiz 18 anos decidi alisar o cabelo com desfrizante (relaxer em inglês). É um produto SUPER agressivo para o couro cabeludo e os próprios fios do cabelo, mas ele estava liso, brilhante e sem volume. As pessoas quando me viram assim gostaram e até me dava elogios tipo, "Uau, pareces a Alicia Keys". Claro que estava nas nuvens! Mas passado uns tempos, e alguns alisamentos, porque o cabelo cresce e cresce no seu estado natural, comecei a detestar. Não podia lavar o cabelo quando queria, demorava no mínimo 1h a esticar com o secador, tinha IMENSAS pontas espigadas e o cabelo não crescia (e eu adoro cabelo comprido). E agora decidi, vou deixar o cabelo voltar ao seu estado normal. E acredito, foi A MELHOR DECISÃO que podia ter tomado. O cabelo está forte, brilhante, sem pontas espigadas, e está a crescer! :D E adoro os meus caracóis! É bom ser diferente, mas à minha maneira =)
    Por isso, o conselho que dou à tua amiga é que não fique com pena da pequenina quando ela está triste. Arranja dicas de resposta para os meninos maus, tipo "o meu cabelo é mais bonito que o teu porque é encaracolado, porque é divertido, vocês têm todos iguais, são vulgares" e a melhor resposta será mesmo, "ao contrário do teu se eu quiser posso ter hoje encaracolado e amanhã liso e o teu nunca será encaracolado". Mas eles também são muito pequeninos, não vão perceber estas respostas. Mas, por favor não alise o cabelo da menina, é contra-natura e é uma decisão que traz consequências para a saúde...
    Beijinhos

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  8. Sim, as crianças têm "corações tão mesquinhos" e nada do que a sua amiga faça vai mudar o sentimento dos outros.
    Mas desde que eu me lembro o mundo sempre foi assim. Quando eu era criança e estudava num colégio de freiras carésimo do Rio de janeiro, era discriminada pelos outros coleguinhas de turma por que era pobre, não podia ir de férias para a Disney como os outros ou não tinha motorista para ir me buscar à porta do colégio. Doeu, claro, mas passou. Meus pais, estrangeiros que eram, certamente com medo de perder a bolsa de estudos da qual eu beneficiava, pouca coisa diziam. Ao contrário de outros portugueses ricos, o meu pai era o português da quitanda.
    Anos depois, já aqui em Portugal, tive que ensinar ao meu filho (que na época tinha apenas 8 anos), não a se defender das gozações dos outros, mas a valorizar-se mais a si próprio. Era um miúdo gordinho, muito gordinho. E brasileiro (embora branquelo azedo)com todos os sotaques de recém-chegado.
    Era um exercício diário. Eu repetia como um mantra, a oração do dia: És bom. És bonito. És muito melhor do que muita gente.(não dizia que era o melhor de todos) És ótimo aluno, ajuda quem precisa. Eu te amo. Nós te amamos, isso é o mais importante.
    Talvez esse seja o caminho para a sua amiga e a filha dela. Não podemos mudar o modo como os outros nos tratam, principalmente se forem crianças. Mas podemos aumentar a auto-estima daqueles que amamos.
    Quando ela crescer vai aprender a ligar o "foda-se", que é sempre uma ferramenta útil.
    Beijinhos

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  9. Que coisa triste, uma miúda tão linda vítima de preconceitos estúpidos! È a prova que quem tem dinheiro não tem cultura. Para quê pagar um colégio caríssimo, cheio de "gente fina"? Eu mudaria a miúda de escola! Ela vai ficar complexada e traumatizada para o resto da vida! E ela é tão linda! Pena, mt pena!

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  10. Tenho lido muita coisa sobre a transição capilar, e não fazes nem ideia da quantidade de testemunhos de meninas que deixaram a química depois de terem começado em tão tenra idade. É um assunto sério mesmo, no Brasil. Nunca fui gozada na escola por ter cabelo encaracolado, mas sempre quis assemelhar-me às minhas colegas. Ficamos com a sensação de que o nosso cabelo não é normal, mas isso nunca me fez sentir menos que as outras, só mais despenteada por norma :p

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  11. Sempre fui branquela e de cabelo comprido e liso e nunca na minha vida discriminei alguém por ter o cabelo com muitos caracóis ou "afro" felizmente fui criada com valores em casa. Essa tua amiga, como alguém já disse anteriormente, devia retirar a menina dessa escola imediatamente. Estão a destruir a auto estima dessa criança! Para que estar a estudar numa escola com criaturas tão preconceituosas?? Numa escola publica há crianças de todo o tipo, ela vai sentir-se melhor!
    Eu adoro caracóis, adorava ter:))

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  12. Eu tenho caracóis e com muito orgulho. Graças à Força Suprema, desde pequena, que tenho a auto-estima lá nos píncaros pelo que, chamarem-me de preta nunca me afectou até porque tinha/tenho sempre a resposta na ponta da língua.
    E se essas "criancinhas" são assim é porque lá em casa é assim(passo a repetição) ou pior.

    Carla

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  13. Sabex que esse filme é do Chris Rock que se lembrou de o fazer qd a filha pequenina tb lhe pediu para fazer um desfrizamento(?)porque tinha un bad hair lol.

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  14. Sabex que esse filme é do Chris Rock que se lembrou de o fazer qd a filha pequenina tb lhe pediu para fazer um desfrizamento(?)porque tinha un bad hair lol.

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