04 setembro 2013

A tal da bengala

No fim-de-semana liguei para o Rio de Janeiro e entre conversas com a tia, ela dispara: ah, porque a tua avó agora que anda com a bengala só quer passear e... Ai, pessoas, depois da palavra "bengala" eu simplesmente deixei de ouvir. Sabem quando uma palavra parece ficar a ecoar dentro de nós durante vários minutos? Pois... A minha tia continuou a falar como uma destrambelhada (provavelmente sem se dar conta do que tinha deixado escapar) e eu só conseguia ouvir: "bengala, bengala, bengala". A minha avó está a usar uma bengala de apoio. Uma bengala...

Como fiquei muda ao telefone, a tia estranhou e perguntou se eu estava a ouvi-la. Pedi-lhe para passar o telefone à minha avó e, meus amigos, nem me aguentava a falar. Toda eu era soluços, lágrimas, não tinha voz, foi assim uma espécie de catarse. A única frase que me saía era: "vó, é sério que você está usando bengala?" e ela, esperta: "mas quem é que te disse isso? Não era para você saber! Te conheço, agora vai ficar ai com a boca aberta achando que eu tô nas últimas. Só comprei a bengala para me dar mais firmeza para caminhar, essa artrose acaba com o meu joelho... mas tô andando direitinho e ainda estou a ponto de te dar com a bengala na cabeça, se você não parar de chorar!

Tentei rir para descontrair o ambiente mas o riso soou falso até para mim. Não consigo lidar com a idéia de que ela fica mais debilitada a cada dia que passa. Não aceito. Olho para a minha avó e vejo-a tão lúcida, tão independente e activa que me custa imaginá-la a caminhar com uma bengala. Ainda há um ano estive no Rio e vi a avó dançar, toda animada, num churrasco de família. Como posso aceitar que em pouco mais de um ano ela esteja a usar uma bengala de apoio? Não entra na minha cabeça.

Tenho um grave problema: não consigo lidar com a idéia da morte. Não gosto nem de imaginar que um dia a minha avó já não estará comigo. Não falo, sequer, sobre esse assunto. Como se, ao evitá-lo, ele deixasse de existir. Ás vezes penso na minha vida daqui há dez anos, por exemplo, imagino-me com filhos e penso: nossa, a minha avó vai ficar maluca com os meus filhos! Vai querer fazer-lhe as vontades todas, todinhas, como fez comigo... Mas depois cai a ficha e eu lembro-me que daqui a dez anos ela estará com noventa e... será que ainda vai estar cá? Será que vai continuar a ser a pessoa maravilhosa que é? Ou vai perder essa personalidade alegre e divertida que eu tanto amo?

Não sei, pessoas. E não saber dói. Dói tanto... Se existem duas pessoas nesse mundo pelas quais eu daria a minha vida, sem sequer piscar, essas pessoas são a minha avó e a minha mãe. Nem sequer consigo imaginar-me sem elas, raios partam!

A tal da bengala surgiu como uma espécie de aviso. Porque eu, simplesmente, não consigo enxergar a minha avó com a idade que tem (vai fazer 80 daqui há uns meses). Talvez porque ela alinhe em todas as minhas maluquices como se ainda tivesse, sei lá, 50 anos (tipo, encarar um vôo Rio-Lisboa com escala em dois países diferentes - detalhe: sozinha e sem falar nenhuma língua estrangeira). Mas eu preciso interiorizar que os anos passam e roubam o tempo que me resta com ela. Preciso aceitar que a minha avó não é eterna (como muitas vezes pareço pensar) e que por mais médicos bons, seguros de saúde xpto e clínicas topo de gama que o dinheiro compre... um dia ela não estará mais aqui. E essa idéia aterroriza-me.

 Amor da minha vida // Parque Eduardo VII, Lisboa // Julho2010

(p.s: era altura do Mundial e por isso tinha pintado uma unha de cada cor da bandeira brasileira por causa do jogo Brasil x Holanda daquela tarde... e o Brasil tomou um pau e foi desclassificado! #fail)

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11 comentários

  1. Que texto tão lindo, até me puseste com lágrimas nos olhos. Realmente, lidar com a idéia da morte e da perda não é nada fácil... Principalmente quando estamos longe e sem poder constatar a realidade.

    Desejo muitos anos de vida à tua avó e que vocês possam estar juntas por muiiiito tempo ainda ;)
    Beijinhos :*
    Mari

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  2. Tambem adoro a minha avó <3 e tambem adorava a minha falecida avó... Infelizmente o tempo leva-nos quem mais gostamos. Bjinhos

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  3. Anne ao ler este texto veio-me uma lágrima aos olhos. Hoje, quando fomos levar o meu avô ao aeroporto (ele veio passar cá 15 dias connosco) senti tanto isso. O meu avô é das pessoas mais importantes da minha vida e não consigo, tal como tu, sequer equacionar a possibilidade de um dia já não o ter cá. Sei que 82 anos já é uma idade avançada...mas não há quem viva até aos 110?:)
    Um beijo grande querida, vou enviar-te um email porque vou aí a Lisboa dia 12, talvez dê para combinarmos qualquer coisa. Para que mail mando?:)
    Beijo.

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  4. Percebo perfeitamente o que sentes. A minha avó é a pessoa mais linda e bondosa que conheço, morro de pensar que um dia ela tem de partir.. :(
    Se há uma pessoa de quem me emociono a falar, essa pessoa é sem dúvida a minha avó...

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  5. Anne, a morte faz parte da vida. Não é um processo isento de dor, claro que não mas é algo absolutamente imutável,e tnão não vamos sofrer por antecipação. Quando for a hora, levamos um dia de cada vez, ficam as memórias e pronto. Pensamento positivo, uma bengala não é nada de especial!

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  6. Não tens que mentalizar porque nunca vais estar completamente mentalizada... mas tens que saber que um dia, infelizmente, vai acontecer, por isso aproveita cada instante para a mimares.

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  7. Eu tb adoro a minha avó materna e sei bem do que falas...bjs

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  8. Entendo tão bem essa dor, chega a ser sufocante :'( A tua avó é liiiinda :D as maiores felicidade, e que viva ainda muitos aninhos, como desejo à minha já com 87. Mas eu quero sempre mais e mais e mais :D

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  9. Penso exactamente como tu! Detesto falar de morte e pensar sequer... não falo para ver se ela não me ouve. Tenho essa angustia em relação aos meus (pais e tia)... e não vale a pena que não consigo me mentalizar...

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  10. Primeiro parabéns, a tua avó é linda!!!
    Em segundo lugar: Para de pensar nisso!!! Você mesma diz, o que não tem remédio, remediado está. Então aproveita todos os momentos, faz tudo o que quiser e puder com ela, vai ao Brasil quantas vezes apetecer.
    A minha avó veio a Portugal pela última vez tinha 86 anos. Agora tem 90 e quer vir de novo. A velha é mais forte que eu. Penso que a sua tb seja assim, pela energia que nos conta. Estamos contando com a partida da véia (que é o jeito mais carinhoso de nos referirmos a ela) há mais de 20 anos e ela já enterrou mais de meia-dúzia mais jovens do que ela. Por isso, relaxa e aproveita. Isso aí no joelho não é nada, o meu joelho ainda é pior do que o dela. Vais ver que aos 90 ela ainda vem cá trocar as fraldas do teu bebé.
    beijinhos

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  11. Obrigada pelas palavras, meninas. É muito bom saber que, mesmo este não sendo o tipo habitual de postagens, posso sempre desabafar o que me vai na alma com vocês. É bom saber que há por aí gente que sente o mesmo, que passou pelo mesmo e que compreende tão bem o que eu sinto.

    Obrigada. Vocês são incríveis ;)

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