20 setembro 2013

o último abraço.

Uma vez perguntaram-me o porquê de eu ser tão melosa e efusiva com os meus. O porquê de nunca desligar uma chamada telefónica com a avó, por exemplo, sem soltar um: velhinha, eu te amo tantooo!, mas porquê, porquê tens que ser tão melosa...? - perguntam-me. A resposta é simples: só se vive uma vez e eu não quero desperdiçar a chance de reforçar para as minhas pessoas o quanto elas são especiais para mim e o quanto a minha vida seria chata sem elas. Nunca sabemos quando será a última vez. É sombrio, mas é verdade. Eu não quero deixar nada por fazer, nada por dizer.

Na quarta-feira soube que o pai da Vi sofreu um infarto fulminante e coube a mim dar a notícia à minha mãe. Foi a coisa mais difícil que já fiz na vida.

Olhava para ela e só conseguia chorar, uma dor inexplicável. Doía tanto... Em dez anos que vivo em Lisboa, esta foi a primeira vez que perdi alguém da família e nunca imaginei que seria tão difícil. A minha mãe está completamente de rastos, afinal, foram casados por 14 anos e estavam separados há apenas dois. A princípio não queríamos dizer nada à Vi mas depois as pessoas começam a enviar mensagens no facebook e seria pior para ela descobrir por outra fonte, por isso, não pudemos esconder por muito tempo.

Era capaz de fazer qualquer coisa para não ver a reacção da minha irmã quando soube. Foi horrível, ela só chorava e abraçava-se a boneca que ele lhe deu ano passado e dizia: "não, não... o meu pai não". Não há maneira suave de dizer a uma criança uma coisa destas. Por mais caminhos que se tente, é sempre difícil. Disse-lhe que teria sempre a mim, ao mano, a mãe; que vamos estar sempre juntinhos; que o pai dela está lá no céu a olhar para ela e a amá-la da mesma forma de antes.

As palavras não ajudam muito nesta hora. Nada faz sentido, nada consegue consolar. O Eduardo casou-se com a minha mãe quando eu tinha 9 anos. Foi mais pai para mim do que o homem que me pôs nesse mundo. Foi pai em todos os sentidos: ia em todas as reuniões no colégio, ia ao cinema, brincava comigo, fazia questão de sair aos fins-de-semana para irmos ao shopping comprar qualquer coisa, esteve sempre pronto para mim quando precisei. Foi um verdadeiro pai, no amplo sentido da palavra, para mim e para o Pê.

Dói lembrar o quanto ele quis que a minha mãe voltasse a engravidar (tentaram 4 inseminações artificiais), a alegria que ele sentiu quando finalmente vimos o resultado da ecografia e lá estava, aquele coraçãozinho pequenino. Ele ficou maluco quando a Vi nasceu! Era a filha adorada dele, a mais desejada. E, apesar de já ter 48 anos quando ela nasceu, ele sempre acreditou que a veria adulta, formada, casada... E de repente, tudo aquilo que ele planeou para a pequena princesa foi roubado por um infarto estúpido.

Tantas e tantas vezes falámos para ele moderar a alimentação, o churrasco, para controlar o colesterol. Que nada... entrava por um ouvido e saía pelo outro. Mesmo depois de um AVC e um infarto, ele continuava a dizer que só estava bem quando tinha um bom pedaço de picanha no prato. Nós já imaginávamos um desfecho assim. Mas nunca pensamos que seria tão cedo.

A despedida da Vi, horas antes de entrar no avião rumo à Lisboa. [29.12.12 - Rio de Janeiro]

E no final de tudo, restam apenas as lembranças. Dos momentos especiais, do carinho, da atenção... A vida é efêmera mas as lembranças, essas, são eternas. Obrigada, Edu. Por tudo o que fez por mim, por tudo o que me ensinou... E por ter me presenteado com a irmã mais carinhosa, mais incrível e companheira do mundo: a nossa princesa. Que Deus nos dê a sabedoria necessária para educá-la e transformá-la numa adulta que vai te encher de orgulho, aí no céu. Até um dia.
 
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10 comentários

  1. Que bonito! Sinto muito pela vossa perda, sobretudo pela distância que torna tudo mais doloroso. Confiança em Deus e coragem!

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  2. Força... Dizem que é contra natura os pais verem partir os filhos, mas ver partir um pai é das coisas que mais doem!
    É uma dor que não passa, mas aprendesse a conviver com ela todos os dias da nossa vida...
    Beijinho do fundo do coração!

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  3. Sinto muito. Até me emocionei com o teu texto. Vai ser complicado, principalmente para a Vi, mas ela tem a sorte de ter uma mãe e uns irmãos super carinhosos e que lhe dão muito apoio.

    Beijinhos e força.
    Sara F.

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  4. Nossa Anne... desta vez me comoveu de verdade. Pensei no meu que se foi depois que vim morar para Lisboa. Envelheci 10 anos em 1 dia. É uma dor que não passa nunca, só fica adormecida.
    Beijos para vcs. A Vi é uma miúda de sorte por ter a ti como irmã.

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  5. Já li este post 10 xs e é mm mt triste. Nenhuma criança merece ficar sem pai mas não há nada a fazer e , tens razão, as palavras não consolam.
    :(
    Beijinhos

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  6. Muita força para ti e para toda a tua família. Um miminho especial para a grande Vi

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  7. Fico bem triste por vocês Anne. Não há palavras que consolem a vossa perda. Lamento muito

    Beijo para ti e para Vi, para quem a Vida continua.

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  8. Ninguém devia passar por isto tão nova... quer dizer ninguém deveria sentir tanta dor , mas uma criança é bem pior :X

    Ao menos sabe que o pai sempre a amou e gostava dela incondicionalmente .

    bj

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  9. Abraço muito apertado para todos... Beijinho grande

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