26 outubro 2013

Dos momentos que nos tocam a alma

Há dias fui com umas amigas ao Vasco da Gama e na volta uma delas foi apanhar o autocarro e fomos andando por baixo da gare [estava a chover tanto...] enquanto conversámos. Nisto reparei num sem-abrigo, sentado num banco dentro da gare, lá ao fundo, encolhido. O senhor devia ter uns 60 anos, tinha uma barba comprida e olhou directamente para mim... e sorriu. Abriu um sorriso enorme, como se o frio, a chuva e, provavelmente, a fome que sentia, não fossem importantes. Simplesmente, sorriu-me.

Sorri de volta, completamente encantada. As minhas amigas riram-se e uma delas ainda brincou: "vê lá se não está a fazer-se a ti". Perguntei ao segurança que estava na estação se o senhor costumava estar sempre ali e ele confirmou-me. Fui para casa mas o sorriso do velhote não me saía da cabeça. E nestas coisas gosto de seguir os meus impulsos, por mais tolos que pareçam. Senti que podia fazer qualquer coisa por ele. Por isso, quase uma semana depois, voltei à gare do Oriente, desta vez com comida quentinha [sopa, pão e comida de verdade (arroz, bife, batata assada), cobertores, um edredão e uma almofada].

Não sabia bem como havia de abordá-lo para oferecer ajuda, aliás, não sabia sequer se ele estaria lá. Mas estava, sentado no mesmo sítio da outra vez. Sorri-lhe. Sorriu-me de volta. Caminhei até ele, ainda sem saber bem o que diria [e se fica ofendido? E se recusa ajuda?] e assim que me aproximei, disse-me:

- Boa tarde, menina...
- Boa tarde. Olhe, vi-o no outro dia e tomei a liberdade de lhe trazer algumas coisas e uma refeição quentinha. Aceita?
[suspirou, um suspiro profundo... e eu comovi-me.] - Aceito, menina.
- Posso? [fiz sinal para sentar-me ao lado dele].
- Pode.

Comecei a tirar as coisas todas e no final, quando viu a almofada, segurou-a contra o peito, fechou os olhos e exclamou: ah, menina... não imagina há quantos anos eu não deito a cabeça numa almofada como esta!, olhou-me com os olhos cheios de lágrimas, agarrou-me na mão e disse-me apenas: obrigado.

Pisquei para afugentar as lágrimas e sorri-lhe. Despedi-me com um "eu é que agradeço" e caminhei até o carro. Assim que me sentei no carro, fechei a porta e fiquei uns minutos a reflectir. Eu ali, quentinha, protegida, saciada... e tantos, mas tantos, lá fora, à chuva, ao frio, à fome.

Se há uma coisa que me parte o coração, mais do que tudo, é ver um velhote a passar por dificuldades. Fico moída. Porque são mais fracos, são indefesos, muitas vezes abandonados à própria sorte como se de um trapo velho se tratasse, muitas vezes com carradas de filhos e netos que os deixam no abandono. Penso sempre na minha velhinha, minha avó, o amor da minha vida. Faço por eles, mas sinto que estou a fazer por ela. É uma forma de senti-la mais perto de mim. De sentir que fiz a diferença por alguém. Para ele, o sem-abrigo, ontem foi um dia da sorte. Mas a maior sortuda nessa história toda fui eu. Ganhei mais humildade, mais compaixão, mais amor. Ganhei infinitamente mais do que ele e por isso... eu é que agradeço.

P.S: Sei que muitos dizem: De que importa ajudarmos um dia se no dia a seguir ele vai passar novamente fome, frio e sede? mas se todos pensarem assim ninguém lhe estende a mão. Fiz aquilo que pude e espero, sinceramente, que mais pessoas possam fazer o mesmo porque ninguém, numa idade já tão avançada, merece viver nestas condições.

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13 comentários

  1. Anne já há muito tempo que sigo o teu blog e que tanto adoro ler. Mas este post foi sem dúvida um dos mais bonitos que li e demonstra a grande e bonita pessoa que és. Dei por mim a meio do post com lágrimas a cair-me e com um bocado de vergonha de mim própria por não conseguir ter essa coragem e coração cheio que tu tiveste.
    Quantas e quantas vezes não leio aqui comentários maldosos que te fazem e agora pergunto-me se essas pessoas conhecem de facto quem realmente és e se alguma vez conseguiriam estar à tua altura numa situação destas.
    Tiveste um gesto muito bonito e carinhoso e tenho a certeza que trouxeste muita alegria aquele senhor não só naquele dia, mas também para toda a sua vida.
    Muito obrigado por este post Anne...fizeste-me acreditar que ainda há pessoas boas neste mundo e que com pequenos gestos se pode fazer muito ;)
    Beijinhos*

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  2. Obrigada! Apenas consigo dizer isto... grande atitude e principalmente de coragem, muitos incluindo eu, teríamos esquecido aquele senhor ao fim de 10 minutos! Obrigada pelo exemplo!

    horanetblog.blogspot.co.uk/

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  3. Fiquei comovida. É assim mesmo! O mundo muda porque existem pessoas que conseguem ultrapassar o embaraço, a vergonha e, principalmente, a indiferença. Foi um gesto muito bonito... :)

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  4. Agora deixou-me com "uma lágrima no canto do olho"! Bem haja!

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  5. Foi um gesto muito bonito! Fiquei comovida, tens mesmo um bom coração. É reconfortante quando nos apercebemos que ainda existem pessoas assim.

    Beijinhos

    Sara F

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  6. :( Coitado dele. Mas, há casas para sem abrigos, tipo Santa Casa da Misericórdia onde eles podem dormir, tomar banho e comer de forma gratuita. Mas, eles habituam-se a viver na rua.

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  7. É das coisas que mais me custa velhotes e crianças!!

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  8. Obrigada. Em nome daquele senhor mas, sobretudo, em nome de uma sociedade tão egoísta.
    Hoje fiquei com vontade de te dar um abraço daqueles apertados.

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  9. Sigo o teu blog e tbm no face...
    Adorei saber que tens um grande coração, achei de uma simpatia o Sr ter sorriso para ti, ele devíamos a situação podia ser antipático ou carracudo, mas não soriu.
    E nos que temos tudo muitas vezes nem um sorriso damos a ninguém.
    Parabéns pelo teu gesto
    Beijinhos de África
    Cristina

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  10. Anne amo você a sério.. São pessoas como tu que me fazem ter ainda alguma fé neste nosso mundo!

    Beijo grande para ti

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  11. Ai o que eu estou a chorar Anne. Obrigada. Obrigada mesmo por esse gesto de que normalmente todos nos esquecemos. Aquele senhor, sempre que deitar a cabeça na almofada vai pensar e rezar por ti, tenho a certeza e, só por isso, acredito que tenha valido a pena. E algo me diz que não deixarás a historia ficar por aqui :D

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  12. Anne, cada vez gosto mais de si :)

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