15 dezembro 2013

Foi há 9 anos...

que apanhei aquele avião da VARIG com destino a Lisboa, pela primeira vez. Vim a chorar durante todo o vôo, não conseguia achar graça a nada, não queria mudar de país, estava de rastos. Com 17 anos, tudo parecia assustador: mudar de país, de colégio, deixar a família, os amigos de infância, tudo o que eu conhecia... ficou tudo para trás. Comigo só mamãe, a Vi bebé [ainda de fraldas e biberão] e o Pê, no auge da adolescência (chato como tudo). E carradas de malas pelo caminho [contabilizei 17 malas, para 4 pessoas - a nossa vida estava ali, naquele punhado de bagagens].

Não foi fácil, foi uma mudança brutal. Lembro-me tão bem do dia em que cheguei... Estava um frio desgraçado [saí do verão carioca directo para o frio outono lisboeta] e lembro-me que mal saí do avião, pensei: "meu Deus, como essas pessoas conseguem trabalhar, estudar, sair de casa... nesse frio? Eu vou morreeeeer!". E eu ainda não tinha visto nada.

Lembro-me de ir ao LIDL e achar tudo absurdamente barato [o quê? oitenta centavos (sim, eu pensava na moeda brasileira) por uma embalagem de macarrão?! Esse preço deve estar errado!] e querer levar o mercado todo atrás. Lembro de achar piada à educação dos condutores com a passadeira e de ter ligado, assombrada, para a minha avó e exclamar: "avó, parece mágica: as pessoas colocam um pé na "faixa de pedestres" e os carros param na hora!".

Os primeiros, vá, cinco meses foram os piores. Aceitar uma cultura diferente da nossa, com hábitos que para mim eram pavorosos [tipo, assoar o nariz à mesa, enquanto outras pessoas ao lado comem - ecaaat, eu morria de nojo], foi um teste à minha resistência. Aprender a conviver com outra língua, com palavras que soavam estranhíssimas ao meu ouvido e controlar o ímpeto de deixar a televisão sempre ligada na GNT foram tarefas complicadas. Eu ficava com dor de cabeça do esforço de tentar perceber o sotaque das pessoas, era horrível. [e olha que toda a minha família materna é portuguesa, mamãe nasceu em Viana do Castelo e tudo, ou seja, eu deveria estar habituada ao português de Camões - mas não estava].


Foi em Lisboa que eu:

- descobri que já não me sinto completamente em casa no Brasil. Sempre que vou lá de férias, sinto-me esquisita, diferente... como se eu já não fizesse mais parte daquele lugar. Fico sempre com a sensação de que me falta qualquer coisa.

- descobri o que é amor incondicional, verdadeiro... Conheci o meu amor, numa tarde de fevereiro e perdi-me naqueles olhos azuis. Até hoje :)

- aprendi a aceitar as pessoas como elas são, a respeitar culturas diferentes da minha, a não olhar de nariz torcido a indiana que entra no metro de sari ou o muçulmano que usa um turbante na cabeça. Aprendi que somos únicos, especiais à sua maneira.

- descobri que a distância da família dói de uma maneira absurda, que eu jamais imaginei. Com os anos, mais cedo ou mais tarde, acontece sempre alguma situação em que nós gostaríamos de estar presentes, aliás, em que nós deveríamos estar lá. E simplesmente, não podemos. [casamentos, nascimentos, funerais...]. E aquele pensamento não me larga: e se eu estivesse lá? As coisas seriam diferentes? - de todas, essa é a pior parte.

- fiquei extremamente frustrada quando, ao solicitar equivalência aos meus estudos [tinha terminado o 12º ano quando vim para cá], soube que consideravam o ensino do Brasil fraco em relação ao de Portugal e por isso baixaram-me a média de secundário para 16,4 valores [e a minha nota mais baixa no secundário era um 17,5, enfim...]

- tirei um curso numa universidade pública lisboeta. E um mestrado :)

- perdi amigos no Brasil, vários. No início, todos tinham imensa saudade, falávamos todas as semanas, estávamos sempre online. Com os anos... uns casam, outros mudam de cidade, outros perdem o interesse... E percebemos que daqueles amigos todos, só três ou quatro sobrevivem à distância e ao tempo. Só os de verdade, como eu costumo dizer.

- fui olhada "de lado", fui considerada "mais uma imigrante", fui julgada só com um olhar, apenas por ser brasileira.

- aceitei trabalhar em sítios que sequer cogitaria trabalhar se estivesse no meu país. Tipo: vendedora de shopping, promotora de vendas em hipermercados, assistente de call center... [não é que seja um trabalho vergonhoso, que não é, mas é frustrante depois de tantos anos de estudo e dedicação [e esforço da minha mãe, que sempre me pôs nos melhores colégios] eu terminar por trabalhar atrás de um balcão. Mas fi-lo e volto a fazê-lo se a necessidade assim o ditar. Não é vergonha, é apenas... frustrante.

- conheci vários países, viajei para sítios incríveis por preços irrisórios [tipo, viajar para Madrid por 120€ com avião e hotel de cinco noites incluído - quando eu faria isso no Brasil? never]

- percebi que, com o tempo, a comunicação com os amigos vai ficando mais complicada. São as piadas que eu não entendo, são as gírias e expressões novas que surgem a cada dia no Brasil e que eu fico tipo: ahn? o que é isso? e lá vai a pessoa explicar tudo. Perde-se a fluência, perde-se a afinidade natural... é chato.

- meu universo ficou maior. Minha visão de mundo, que antes eu julgava como sendo "a certa", está bem longe disso.

- descobri que as pessoas que vivem no Brasil acham que eu levo uma vida de princesa na Europa, que fiquei milionária porque viajo para outros países, porque gasto muito [na cabeça deles] e ganho em euros. Na mente deles, eu sou uma espécie de Kate Middleton portuguesa, só que morena. E sentem-se na liberdade de: me pedir empréstimos, pedir para eu comprar tablets e telemóveis caros para levar para eles no Brasil, quando vêem para a Europa querem sempre ficar uma semana cá em casa para "conhecerem Portugal sem gastar muito". Enfim, lata descomunal.

Mas, de todas essas coisas, Lisboa fez com que eu crescesse muito, em pouco tempo. Nesses 9 anos de cidadã portuguesa, que também o sou, aprendi imenso. Descobri que posso qualquer coisa, desde que lute com garra. Descobri que o melhor tesouro que podemos ter nesta vida é a nossa família por perto. Que as pessoas julgam pelo que vêem. Que não há lugar mais especial do que aquele em que somos verdadeiramente felizes. Como eu sou quando estou aqui. ❤

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14 comentários

  1. Fiquei muito emocionada a ler este post. Revejo-me em todas as tuas palavras, apenas muda o país. Sou portguesa e vivo em NY. Agora, estou de férias em Portugal e sinto-me como se aqui nao pertencesse. Como uma estranha e concordo contigo o lugar especial é aquele em que nos sentimos verdadeiramente felizes:)

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    1. É preciso coragem para largar tudo para trás e recomeçar noutro sítio. NY deve ser fantástica (ainda não conheço) mas nada se compara à nossa cidade, ao sítio que nos viu crescer, não é? Há oportunidades que só surgem uma vez e temos mesmo que as agarrar. Arriscar. Mudar.

      O que importa é que sabemos que, haja o que houver, temos sempre o nosso "cantinho", no nosso país, aquele que nos viu nascer, com as nossas pessoas. E essa certeza é das melhores coisas do mundo! :)

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  2. Dos teus melhores posts! Também sou portuguesa e vivo fora. Uma vez na vida toda a gente deveria experimentar esta viagem que é sair da zona de conforto para o desconhecido, seja porque razão for. O mundo ficaria muito mais tolerante. Aprende-se muito e tornamo-nos muito mais fortes.

    Beijinho, Maria.

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    1. Obrigada, Maria. Concordo contigo, acho que toda a gente deveria experimentar esta sensação de "estar por conta própria" noutro sítio, noutro país. Nem que sejam 6 meses, é uma experiência tão rica que é impossível voltar a sermos como antes. Um beijinho :*

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  3. Que eu saiba a LÍNGUA é a mesma.

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    1. Sim, a língua é a mesma mas é como se não fosse. Aliás, ouve-se sempre pelas ruas: "ah, mas isso é escrever em brasileiro". Sim, eu sei que Portugal e Brasil, teoricamente, falam a mesma língua. Mas na prática... ui, está bem longe de ser a mesma língua.

      Palavras diferentes, verbos iguais mas com significados diferentes, pronúncia diferente, conjugação verbal diferente, enfim... Basta perguntares a um português que tenha ido viver para o Brasil (ou a um brasileiro que viva em Portugal) se acham que falam a mesma língua.

      E não, não é como o inglês britânico e o americano, no caso da língua portuguesa é mesmo uma diferença brutal entre o PT-PT e o PT-BR.

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  4. Nem mais uma vírgula a acrescentar. Essa também é a minha história...
    E também foi a história da sua mãe, e a dos meus pais, só que ao contrário.
    E quem sabe não será a história do meu filho, já na universidade.
    Concordo com o anónimo das 14:12 que a LÍNGUA seja a mesma, mas ouvi dezenas senão centenas de vezes; "Eu não percebo BRASILEIRO". Vai ver o que estavam a dizer era "eu não percebo brasileiros", é devia ser isso...

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    1. É, Mila, essa é a nossa história e a história de tanta gente ao redor deste mundo que, por algum motivo, fez as malas e pirou-se. Há dias em que fico realmente feliz por ter feito esta escolha mas há dias em que sinto que não compensa, que perco demasiadas coisas ao estar longe. Não é uma escolha fácil mas... aqui estamos :)

      Em relação à língua, sim, claro que é a mesma mas para quem acaba de chegar a PT, é como se fosse outro idioma, eu não percebia nada, nem nos telejornais, nem na rua, nem na escola. A minha palavra de eleição nos primeiros seis meses era: "oi?" ahahaha

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  5. Eu adorei o teu post! E apesar das más línguas de alguns (essas sempre vão haver) é bom saber que se vive "bem" aqui neste cantinho da europa! Bj

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    1. Obrigada, Marta =) Já nem me chateio com as más línguas, na verdade, até gosto de ler pontos de vistas diferentes dos meus, o que me faz ficar irritada é a falta de educação. De resto, levo na boa =)
      Beijinhos

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  6. Compreendo-te perfeitamente. Estou em Inglaterra nem há um ano e noto uma diferença terrível em tudo. E as expressões típicas, como traduzimos? E o sotaque?
    E quando nos calha um gajo que odeia emigrantes? Ui, que cabo de trabalhos para sair de cena.

    Uma confusão sem dó. Lentamente lá vamos...e nos adaptamos.
    Parabéns por estes 9 anos!

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  7. Anne,la no fundo es uma previligiada,nasceste e cresceste na cidade maravilhosa(as minhas viagens de sonho sao o Rio de Janeiro e NYC),e agora vives numa das capitais mais bonitas da europa! e sempre da para matares as saudades do Rio e das pessoas que la tens quando vais la de ferias. beijinho

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  8. Adorei o post e apesar de não ter mudado de país, sinto na pele a distância da família que mudou. Beijinho ;)

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  9. Post delicioso e por estranho que possa parecer deu-me muita força para enfrentar a nova etapa da minha vida que se avisinha. Vamos embora pois as coisas por cá não estão bem. Tenho um nó no estômago sempre que penso no assunto mas aqui encontrei algum conforto nestas palavras sábias de alguém que arriscou e agarrou uma oportunidade que a vida lhe deu. És uma lutadora e mereces cada experiência boa que a vida te dá. Espero um dia fazer um blog e poder dizer o mesmo que li aqui e ajudar outras pessoas a fazer o mesmo, caso tenham a oportunidade de o fazer. OBRIGADA PELAS TUAS PALAVRAS. As maiores felicidades do mundo.
    Beijinho
    Sofia :)

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