27 junho 2014

E é por isso que sou tão apaixonada por ela:

Tudo começou há mais de vinte anos atrás, quando eu tinha uns 2/3 anos e a minha avó sofreu um derrame e teve que ficar internada. Recusei-me a comer sem a presença dela. Não tomava o biberão, não comia, passava o dia a beber apenas água. Os meus pais, ainda casados na época, tentaram de tudo para que eu comesse [desde subornos com brinquedos até a minha comida preferida] e não resultou. No meu segundo dia sem comer, a minha mãe levou-me a pediatra, que por sorte trabalhava no mesmo hospital onde a minha avó estava internada [na UCI] e a médica abriu um precedente: deixou-me [só a mim] entrar no cubículo onde a minha avó estava, a respirar por aparelhos. Mamãe conta que todo o hospital se comoveu com a história, que os médicos meteram um berço de rodas ao lado da cama da minha avó e que eu com uma mão segurava o biberão, com a outra apertava a mão da minha avó, cheia de fios e soro.

Depois, já com uns seis anos, vi um comercial na televisão de uma barbie com o cabelo até o pé, que quando passavamos a escova o cabelo mudava de cor (ficava rosa) e, claro, fiquei maravilhada pela boneca. Só que a boneca custava os olhos da cara e na altura mamãe tinha dois empregos (e a faculdade à noite), o meu pai estava há mais de dois anos sem nos dar um tostão e a boneca era um sonho distante. Sempre que o comercial passava na televisão, eu largava tudo o que estava a fazer e corria para assistir, especada, a tal da barbie. Mamãe explicou que provavelmente eu só ganharia a boneca no natal (e ainda faltavam largos meses) e eu lá me conformei. Até que um dia a minha avó chegou em casa com um embrulho lindo, com um mega laçarote e... era a minha barbie! Eu nem queria acreditar! Soube depois que ela precisou parcelar a boneca em 4x no cartão de crédito [não, a boneca não era assim tão cara, nós é que não tínhamos dinheiro]. E lembro-me dela dizer: “este é o nosso segredo, se a tua mãe sonha com isto, estamos tramadas” e andamos uns meses a ‘esconder’ a boneca da minha mãe até que ela descobriu mas nem ralhou connosco. Sabia que não valia a pena.

A minha avó fazia bolos para as minhas bonecas (dizia assim: hoje é o aniversário desta menina – apontava para uma boneca – vamos cantar os parabéns para ela), cantava para mim (ainda hoje faz isso e eu adoro); deixava-me fazer penteados no cabelo dela (e até cortar! – uma vez deixou-me cortar ‘as pontinhas’ e eu abri-lhe um ninho de rato na mona), ela contava-me histórias de quando era solteira e o meu avô andava feito maluco atrás dela... Foi com ela que eu aprendi a ler, ainda antes de entrar para a primeira classe. Todos os dias, à tarde, a minha avó ensinava-me as sílabas, as letras, líamos o jornal, a revista de fofoca, qualquer coisa que tivessemos em mão. Ela era incansável: “lê o que está escrito aqui”. Dizia que sem estudo e sem cultura, não éramos ninguém. Eu refilava, que estava cansada, que não queria mais ler e ela dizia: “e sem esforço, também não chegas a lado nenhum. Continua.” E eu continuei.

Lembro-me de um dia a minha mãe dizer: “a avó vai ter que tirar uma veia da perna (safena) para pôr no coração, no lugar da outra que esta 'com defeito', ela ficou internada mas ela está bem”. E quem disse que eu acreditava? Fiz a minha mãe levar-me de madrugada para o hospital e, como mamãe conhecia o director, pediu-lhe para deixar-me entrar no quarto da minha avó e vê-la um bocadinho (o horário de visitas há muito que tinha terminado). Até hoje me lembro da sensação de estar na porta do quarto e ver a minha avó, tão pequenina, ali deitada, com montes de fios ligados, máquinas que apitam e aquela bata hospitalar horrível. A cirurgia seria no dia seguinte e eu só conseguia pensar em como eu conseguiria viver se acontecesse algo com ela (pensamento que até hoje perdura. E não, ainda não descobri).

Quando pude ver a minha avó novamente, depois da cirurgia, foi como nascer de novo. Mamãe pediu ao director do hospital para me deixar ficar como acompanhante da minha avó e ele acedeu. Dormi no hospital com ela durante 11 dias, só saia do hospital para ir ao colégio e voltar, andei ali atenta a cada gemido que ela dava, chamava a enfermeira quando era preciso, penteava-lhe o cabelo, lia o jornal para ela... toda a gente achava graça quando nos vía no corredor, uma criança de 12 anos a ajudar uma velhota a caminhar e as enfermeiras até me entregaram um ‘diploma de enfermagem’ no final do internamento.

A minha avó já passou por tanto nesta vida e ainda continua uma menina aos meus olhos: sempre bem disposta, alinha em todas as minhas idéias, tem os sempre os conselhos mais acertados e é a melhor pessoa que eu conheço. Lembro-me da primeira vez em que ela decidiu vir a Lisboa nos visitar...Toda a gente pensou que ela estava a brincar quando disse que estava a tirar o passaporte, ninguém levou a sério. Mas ela veio. Em 2007. Depois em 2009 (e viajamos tanto neste ano! Fomos ao Algarve, à Espanha, à Viana do Castelo,  vovó conheceu Portugal de uma ponta à outra). Depois veio em 2011 e em 2013. Agora, com 80 anos e uma genica que muita menina de 20 não tem... cá a espero, para o meu casamento. 

Não quero pensar nisso, mas... provavelmente esta será a última viagem que ela fará para cá, que o cardiologista já não aconselha vôos para a minha avó (já estava viagem ele não queria que ela fizesse) mas ela teimou que vinha. No fundo, sabe que eu jamais casaria sem tê-la por perto.. E mal posso esperar por abraçá-la, enchê-la de beijinhos e dizer que ela me ensinou tudo o que sei. E tudo, absolutamente tudo, que eu faça por ela será como um grão de areia em relação a tudo o que ela já fez por mim. Ainda será muito pouco para agradecer todo o amor, paciência e dedicação que a minha velhinha sempre teve por mim.

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14 comentários

  1. Uma história linda, muito humana e comovente...tive uma relação parecida com a minha avó e por isso revejo-me nessa cumplicidade que descreve.
    Felicidades,
    Ana

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  2. Ai Anne... não se faz, estou lavada em lágrimas...
    A minha velhota partiu há 2 meses, e sempre foi um dos meus pilares... é tão difícil...
    Aproveita MUITO enquanto a tens cá! Trá-la para ao pé di ti se puderes... cada segundo vale ouro!
    Beijinho
    Filipa

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  3. Lindo, Anne!
    Também tenho imensas lembranças felizes da minha infancia com as pessoas mais proximas... é tão bom revive-las na nossa memoria! Infelizmente já não tenho avós, mas fui para um trabalho onde não me faltam avós (sou animadora num lar).

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  4. tou a chorar que nem uma madalena.

    és muito fofinha anne, espero que ela dure muitos anos para conhecer os netinhos moreninhos de olhos azuis que vai ter :) *

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  5. Até me emocionei ♥ é tão lindo esse Amor ♥

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  6. Identifico me contigo porque tambem AMO a minha avo :) Este sentimento é lindo, Bjinhos
    http://startlivinginsteadfashion.blogspot.pt/

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  7. Adorei este texto Anne, é o que eu chamo de escrito com o coração.. é muito lindo todo esse amor pela tua avó ;) Beijinho

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  8. Anne, até chorei a ler este texto, mas li-o até ao fim porque identifico-me em cada palavra!
    A minha mãe, mãe solteira, também tinha dois trabalhos e faculdade à noite, eu sempre fiquei com os meus avós.
    Com 7 anos o meu avô, o meu pai, o único homem por quem alguma vez irei amar desta forma, faleceu, e aos 8 vim para Lisboa (tambem sou brazuca).
    Durante o primeiro ano todo cá eu recusava-me a comer, a sair da cama, a fazer o que quer que fosse, só comia escondida e chorava noite e dia, e só passou quando a minha avó veio ter comigo.
    Ainda hoje é a unica pessoa que me compreende e que amo além da vida, sim amo imenso a minha mãe, irmã e namorado, mas ninguém nunca chegará aos pés do que sinto por aquela mulher, ela dedicou a vida a fazer de mim quem sou, e deu-me o amor que o meu próprio pai me recusara (só me reconheceu como filha, no papel mesmo até, já aos 17 anos por peso na consciencia), o amor que nunca ninguem me conseguirá dar.
    Hoje tenho 21 anos, ainda em Lisboa, e de toda a familia que la ficou é a unica que vem sempre para ca, esforça o que não pode mas vem, é a unica que sempre liga, que se importa de verdade.
    É mesmo a minha pessoa, a minha alma gémea. E fico feliz por ver que alguém compreende o que sinto :)

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  9. A relação que tenho com as minhas avos é igual :)
    E tive a sorte de conhecer e conviver durante anos com os meus visabos e com uma delas era exatamente a mesma relação que tens com a tua avo. Sinto muito a falta dela.. Aproveita querida :)

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  10. Sem comentarios
    So me cai as lagrimas...
    Beijinhos de africa

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  11. Esta semana, foi difícil para mim e para a minha família. Foi das mais duras e exaustivas que já vivi. Primeiro porque perdemos alguém que amamos muito. E vivendo metade da família em Moçambique, um bocado da família em Lisboa e outro bocado em Londres (ainda tem uns na Austrália e por aí vamos), foi um vuco vuco pra nos juntarmos todos.

    Entre vistos de emergência e desvios por Moscovo (porque Munique teve um siricutico e fez birra), viagens de 2 dias, lá chegamos a Portugal. Foi exaustivo repito. Mas ao mesmo tempo e no meio de tanta dor, foi muito bom. Foi bom partilhar o calor, os abraços, foi bom simplesmente estar PERTO. Porque o perto faz muita falta quando se trata das pessoas que amamos.

    E ler o teu texto Anne, fez-me sentir orgulhosa. Sim, orgulhosa, por saber que ainda há seres no mundo de alma como a tua. Almas que sentem, que se emocionam, que reconhecem o amor que lhes é dedicado. Almas que não deixam a minha se sentir sozinha.

    O que escreveste, digo-te, fez minha alma rodopiar dançando carimbó! :)

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