31 julho 2014

Das lições que a vida nos dá...

Há cerca de quatro meses entrevistei uma pessoa, para uma vaga na nossa empresa, e posso dizer-vos que nunca antes uma pessoa que eu não conhecia teve o poder de me tocar de tal forma... Confesso que, ao ver o currículo [e ao reparar que a Susana só tinha o 9º ano] uma parte de mim pensou: "Mas ela não tem sequer o 12º ano? Nem vale a pena entrevistar..." mas depois li a carta de apresentação e fiquei tão impactada com aquelas palavras, com aquela força que ela demonstrava ter, com aquela 'necessidade' tão visível de arranjar um emprego que achei que não se perdia nada em marcar uma entrevista. E assim foi.

Se é verdade que o currículo não me convenceu [por ter poucos estudos], também é verdade que quando terminamos a entrevista, tive a certeza que ela era a pessoa que procurávamos. A mesma filosofia de vida, a mesma visão, um talento inato para as vendas, uma veia comercial fortíssima, uma pessoa que parecia vestir mesmo a camisola. E quando lhe perguntei se tinha filhos, respondeu-me: "tenho uma menina, tem 3 anos e é a razão da minha vida. Desde que ela nasceu que estou desempregada e não há um dia em que não acorde e pense que ela merece mais do que lhe estou a dar. Quando temos um filho, o nosso orgulho é deixado para trás e fazemos tudo, absolutamente tudo para chegarmos a casa ao fim do dia e ver que a nossa criança tem comida quente no prato e uma cama para dormir." e olhou-me com os olhos cheios de lágrimas.. pediu-me desculpas por estar emocionada e continuou o seu discurso. Fluente. Sem erros de português. Com uma eloquência e uma sabedoria que muita gente 'com canudo' não tem.

E foi ao vê-la ali, naquele misto de desespero e amor desmedido pela filha que veio-me à memória uma cena que eu presenciei aos 5 anos de idade: a minha mãe, dentro de uma farmácia, ajoelhada a pedir ao dono para lhe vender os remédios que o meu irmão [com 2 anos e internado no hospital] precisava para sobreviver. A minha mãe estava destruída, com dois meses de salário em atraso, prestação da casa atrasada, a vida toda parada... e um filho numa cama de hospital. Naquele dia eu percebi que uma mãe faz tudo, absolutamente tudo por um filho. A minha jogou-se aos pés de um farmacêutico, entregou-lhe o BI e uma pulseira de ouro, disse-lhe que voltava no final do mês para pagar pelos medicamentos mas que precisava deles com urgência. Ela saiu daquela farmácia humilhada e envergonhada mas trazia na mão o saco com os medicamentos. E isto salvou o meu irmão de uma morte quase certa.

A Susana entrou na nossa empresa em modo experimental, queríamos dar-lhe uma chance mas ao mesmo tempo, não sabíamos se ela corresponderia. Achamos que valia a pena tentar. A mulher é uma força da natureza, algo que eu nunca vi! Vende tudo, até as paredes [para terem noção, ela chegou a vender 3000€ num único dia!]. As clientes adoram-na! Tem um jeito, um talento para falar com as pessoas que cativa qualquer um. É esforçadíssima e dedica-se tanto ao que faz que consegue ultrapassar qualquer limitação. Está sempre atenta, observa tudo o que se passa nesta empresa e tornou-se no nosso braço direito. Sim, aquela rapariga que só tinha o 9º ano. Tornou-se grande, tornou-se gigante aos meus olhos. Fez-me perceber que uma pessoa não é só um certificado de habilitações. É tão mais que isso!

Ela merece toda a minha admiração, o meu pedido de desculpas por ter sido tão 'céptica' ao princípio e hoje, mais que nunca, a Susana merece os meus parabéns: foi promovida a gerente! [e teve o ordenado praticamente duplicado] Parabéns, Susana. Este é só um pequeno degrau da tua escalada. Obrigada :)

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24 comentários

  1. Um bem haja a ti que viste para além de um mero CV. Graças á oportunidade que lhe foi dada, ela hoje tem comida quente na mesa e uma cama para a filha dela. Devia haver mai empregadores a ver para além do simples canudo.

    Beijinho, Sofia :)

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    1. Na verdade, o mérito foi todo da Susana, que soube agarrar esta oportunidade com unhas e dentes =) Queria com este post mostrar que o valor profissional de uma pessoa não está nos diplomas e certificados e que não perdemos nada (pelo contrário, só ganhamos) em entrevistá-las. O resultado pode ser surpreendente!
      Um beijinho!

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  2. Mais que o mérito que é todo dela , o facto de lhe teres dado uma oportunidade diz tudo que precisamos de saber sobre ti !
    Confesso que fiquei arrepiada! Dá os parabéns à Susana por todas nós :) Nao precisa de saber quem somos , ou que sabemos a história dela , diz-lhe mais uma vez parabéns por mim !

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  3. Dos post's mais lindos que eu alguma vez aqui li.
    Fantástico!!

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  4. Lol, soube-se vender a ti também naquela altura....

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    1. Então melhor ainda. Ela teve provas de como é uma boa comercial. Larga de ser ruim. Oh gente mal sucedida...

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    2. Anónimo das 09:12, diga por favor, se o anónimo das 00h39, foi, em algum momento, ofensivo para com o post, para com a autora do blog, e sobretudo, para com a Susana, para grangear essas pérolas, de "ruim" e "gente mal sucedida".

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  5. Eu chorei (sim, mas é porque sou uma flor de estufa). Mas o post emocionou-me e os meus parabéns para ti e para ela.
    www.blogiamjessie.blogspot.pt

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  6. Confesso que não gosto muito de empresas de recrutamento.
    Sinceramente, se a Susana tivesse ido a uma entrevista para uma qualquer das agências da nossa praça, tenho quase a certeza que nem seria chamada e, na eventualidade remota de ser, depois de contar a história de vida pessoal e se emocionar dessa maneira, muito dificilmente passaria a uma próxima fase.
    O que na prática podemos aferir é que realmente a Susana soube agarrar a oportunidade e fazer o melhor dela, certamente com todo o mérito.
    Se há coisa que me incomoda na vida é a discriminação e o olhar de lado com ares de superioridade para os outros, nomeadamente pelo que têm (ou pelo que não têm) ou pelos seus estudos.
    A formação pessoal é o bem mais rico que algum dia poderemos ter.

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  7. É uma prova viva de que as pessoas não se medem só pela formação técnica que têm, mas também pela inteligência emocional, pela motivação e dedicação. Bem-haja!

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  8. Parabéns à Susana, mas especialmente à vossa empresa (ou melhor a ti!) pela oportunidade que lhe deram!

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  9. Acho completamente pouco profissional e desadequado numa entrevista de trabalho, por um lado, tu perguntares se ela tem filhos e, por outro, essa resposta sofrida da senhora.

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    1. Não acho nada pouco profissional! Até porque os patrões em ter escolha, preferem pessoas sem filhos, para evitar faltas!
      Aqui na Alemanha é obrigatório colocar no currículo se temos filhos e se estes têm onde ficar enquanto estivermos a trabalhar!

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    2. Pois, mas "aqui em Portugal" há regras, previstas no Código do Trabalho, que proíbem os empregadores de fazerem perguntas que tenham a ver com raça, sexo, religião, nacionalidade, idade, deficiência, situação familiar, tipo de situação militar, ou posição financeira. Essas perguntas são ilegais e o candidato pode recusar-se a responder-lhes, ou mentir.

      Podes ler sobre isso aqui (e qual a opinião desses autores sobre empregadores tipo Anne, que escolhem ir por esta via):
      http://manda-te.com/artigos/entrevista-13-perguntas-ilegais/
      http://www.dinheirovivo.pt/emprego/interior.aspx?content_id=3892077

      Igualmente ridículo é o entrevistado aproveitar uma pergunta dessas para despejar com o "discurso da pena", que foi o que se passou aqui. Mas, talvez seja como o que alguém que comentou acima diz: soube vender-se! Transformou uma pergunta ilegal num ponto a seu favor... agora visto desta perspectiva, essa Susana de facto merece ser gerente :P

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    3. Ah e é precisamente para evitar o "até porque os patrões em ter escolha, preferem pessoas sem filhos, para evitar faltas!", é que estas regras existem. Um empregador não pode descriminar um candidtado em razão da raça, sexo, religião, nacionalidade, idade, deficiência, situação familiar, tipo de situação militar, ou posição financeira. Descriminação essa que vale nas suas vertentes positiva e negativa: não contratar alguém porque tem filhos e isso pode levar a que falte ao trabalho, ou contratar alguém porque tem filhos e, coitadinhos, podem estar a passar fome porque os pais não têm emprego. Deve-se focar o mérito e aptidão do candidato para as funções em causa e não estes aspectos acessórios.

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    4. Anónimo da 07h13m e em diante, essas regras do Código do Trabalho são obsoletas e protegem quem não merece. Por isso temos Exmos magistrados do Ministério Público, pagos a peso de ouro, que se recusam a trabalhar ao Sábado porque são adventistas do Sétimo dia!

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  10. Muitos parabéns por teres dado uma oportunidade a alguém que dela precisava, que fez de tudo para a aproveitar e que no final não te desiludiu! Acredita que muitos recrutadores não teriam a sensibilidade que tu tiveste para darem uma oportunidade a alguém com um baixo nível de escolaridade, e a capacidade de ver para além disso só é prova da tua inteligência. Continua assim, e que a Susana continue a ser uma mais valia para a vossa empresa por muitos e bons anos!

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  11. infelizmente vivemos num país em que o certificado de habilitações ou o sobrenome vale mais que as competências reais de cada um.
    Neste país há imensas Susanas. Pessoas que, por mil e um motivo, não tiveram oportunidade de estudar mas que têm uma capacidade de trabalho, aprendizagem e empenho que muitos DR. não têm nem nunca terão. O meu marido costuma dizer que os melhores jogadores de futebol serão sempre aqueles que já passaram fome, porque sabem o que custa e, portanto, estão dispostos a molhar a camisola no suor e dar tudo por tudo.

    Como se referiu, actualmente as agências de recrutamento são um veneno para a igualdade de oportunidades e era bom, muito bom, que as entidades patronais se mentalizassem disso.
    Parabéns à Susana pelas capacidades e parabéns a Vós por não ficares presos a preconceitos.

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  12. Sabes Anne, o post emocionou-me. Muito até porque todos os dias vemos casos de desemprego e nem sempre com este fim. E sim as pessoas são muito mais que um mero canudo, que uma porcaria de um Dr. antes do nome.
    E uma entrevista não precisa de ser "mecanificada" como muitas vezes são e exigem que sejam... concordo em Tudo com a Rosa Cueca!
    Porcaria é que hoje em dia não só olham para as pessoas como canudos mas também como um simples números.

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  13. Ainda bem que a aceitaste, as qualificaçoes muitas vezes nao tem nada a ver com as competencias, simpatia, capacidade de aprender e vestir a camisola. :)

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  14. Adoro que haja gente que consegue ver para além do imediato.
    Obrigada a ti e parabéns à Susana.

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