01 julho 2014

Das palavras que poderiam ser minhas #6

[...Acredito que todo mundo casa fácil porque é também muito fácil se separar. Nos anos 70, o casamento era medido por décadas. Mesmo quando um casamento fracassava, durava no mínimo duas décadas. Nos anos 80, o casamento era medido por anos. Mesmo quando um casamento desmoronava, durava no mínimo cinco anos. O casamento hoje é por dia. Como se fosse hotel.

Agora, o matrimônio cobra diária. Todo dia é dia de se separar. E por qualquer coisa. Las Vegas do divórcio é aqui. Você pode sair de manhã, eufórico e confiante, extremamente disposto, seguro do romance, e quando voltar à noite não encontrar mais ninguém ao seu lado. Se cometeu uma falha, nem terá oportunidade de se explicar. Se não errou, nem terá chance de entender e desfazer confusões.

É tão simples se divorciar que ninguém mais pretende se stressar. Não há nem o civilizado e educado aviso de despejo. É dar as costas, largar o passado e seguir adiante. Quebrou o amor, troca! Quebrou o amor, compra outro! Quebrou o amor, não vale investir consertando!

Os casais não brigam mais até cansar para, então, se separar. Não brigam mais até esgotar as possibilidades para, então, se separar. Não tentam durante semanas e semanas expor as dores, as feridas e a raiva para, então, se separar. Não recorrem ao choro, à histeria, ao perdão, ao abraço, ao exorcismo, aos centros religiosos, aos amigos, aos parentes para, então, se separar.

A separação vem antes. A separação é a regra. A separação é o hábito. A separação é seca, definitiva, sem explicações. As pessoas se separam primeiro para depois discutir. As pessoas se separam primeiro para depois conversar. As pessoas se separam primeiro para depois desabafar o que incomoda.

Elas arrumam todas as malas, esvaziam os armários, realizam a limpa no apartamento e depois, se houver vontade, se encontram e sentam frente a frente para resolver as diferenças. São uniões interrompidas com silenciadores, distante de estampidos e gritos. Ninguém se separa de fato, todo mundo deserta, todo mundo abandona a convivência.

É uma irresponsabilidade extraordinária com o outro, é uma indiferença tremenda ao que foi construído com o outro, é um desprezo ao que foi sonhado a dois. E os motivos podem ser os mais loucos e insignificantes. O desenlace não ocorre mais por justificativas duras como adultério e deslealdade.

Há gente que se separa por incompatibilidade de gênios (expressão que denuncia megalomania, o correto seria incompatibilidade de burros). Há gente que se separa porque não suporta o medo de ser traído. Há gente que se separa porque estava muito feliz e não aguentava tamanha pressão. Há gente que se separa porque se viu entregue ao relacionamento e estava perdendo a identidade. Há gente que se separa porque não sabia mais o que estava fazendo da vida. Há gente que se separa porque não esperava que fosse assim.
Atualmente entra-se numa relação e não se fecha a porta – a porta permanece encostada o tempo inteiro...]   

  Fabrício Carpinejar em "Separações Líquidas"

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3 comentários

  1. Adorei este texto e é tão verdade!

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  2. Sabe Anne, nos meses que antecederam o meu casamento tive que tomar diversas decisões difíceis que eu sabia que eram para a vida, mas muita gente que eu amo chegou a duvidar disso embora não tivesse nenhum motivo, simplesmente porque sim.
    Afinal, quem casa daqui a nada descasa.
    Uma delas foi quanto a adotar o nome do marido. Para quê, dizia uma tia, quando vc se separar vai ter o trabalhão de mudar todos os documentos novamente. Note que ela nem disse "se"eu me separar, mas "quando" eu me separar.
    Outra decisão foi em relação ao regime do casamento, se era por comunhão total, parcial ou separação de bens... Se eu recebesse uma herança o meu futuro marido automaticamente ficaria com parte do que herdei.
    Isso tudo para dizer que tem gente que casa já pensando na separação...
    Algumas pessoas são tão individualistas, pensam tanto em si próprias que esperam que o outro as façam felizes. Que tristeza, nem precisavam casar.
    Mas essa visão é retrógrada e romântica, e é apenas o meu ponto de vista.
    Contrariando algumas tias excessivamente cuidadosas, estou casada até hoje já lá vão 24 anos, (sim casei-me tão jovem que nem me lembro, tem gente casando com a minha idade e tendo filhos!!) Ainda hoje sinto aquela emoção do encontro, da surpresa, das datas especiais, e sim já discutimos inúmeras vezes, mas nunca perdemos o respeito um pelo outro nem adiamos nenhum assunto difícil, não gosto de deixar nada para trás, porque o casamento é feito (e desfeito!) todos os dias. Ah, e até agora não herdei nada de ninguém. ; )

    Muitas felicidades para vocês.


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