01 janeiro 2015

E nos entretantos...

... neste Dezembro fez 10 anos que cheguei em Portugal, de mala e cuia. 10 anos, caraças! E ainda posso sentir um bocadinho daquelas borboletas no estômago quando o avião (ainda da extinta VARIG) aterrou em Lisboa. Toda eu tremia de frio, naquela manhã de Dezembro. Trazíamos (eu, mamãe, a Vi bebé e o Pê) no total 17 malas daquelas gigantes. A nossa vida ali, naquelas malas. Na altura ainda só a minha mãe era portuguesa, nós os três ainda estávamos com o famoso 'visto de turista' e dava uma certa cana entrarmos com tantas malas no país, eu estava com um medo desgraçado que só deixassem a minha mãe entrar, todo um drama na minha cabecinha de 17 anos.

Lembro que o agente do SEF quando nos viu perguntou logo: "a senhora vem passar férias?" e a minha mãe, com a melhor cara de paisagem que conseguiu, respondeu: "sim, vamos passar um mês cá, por isso tantas malas. Sabe como é, viajar com crianças... temos que levar a casa toda connosco" e piscou o olho ao homem. Eu ia morrendo, o homem corou e lá nos deixou passar, sem fazer mais perguntas.

Lembro que tínhamos alugado um T3 na Parede através da internet e estávamos todos um bocado encagaçados da casa ser uma barraca ou nem sequer existir. Apanhamos três táxis (porque as malas não cabiam) e lá fomos nós para o apartamento, já todo mobilado, com roupa de cama, pratos, talheres, enfim... foi só chegar e morar. A casa não era bem aquilo que tínhamos idealizado (nem se comparava ao que estávamos acostumados no Rio) mas chegou perfeitamente para nós, no início.

A primeira noite foi a pior de todas, confesso. A casa não tinha aquecimento central (muito menos aquecedores) e já era muito tarde, não tinha nenhum sítio aberto para comprar. Nós tremíamos no quarto, tivemos que ir dormir todos para o quarto da minha mãe, numa cama de casal: ela no meio, a Vi numa ponta, eu noutra e o Pê aos pés da cama, todos arrepiadinhos até a alma, gelados mesmo. Não tínhamos trazido cobertores e a casa só tinha duas mantas e uns lençóis fininhos. A solução foi nos cobrirmos com umas redes grossas (como estas) que a minha mãe tinha trazido para instalarmos na varanda. Nessa noite eu chorei quietinha, com saudades de casa. A minha mãe abraçou-me e disse: "calma, filha, vai valer a pena".

Hoje, dez anos depois dessa noite, posso dizer que valeu a pena. E continua a valer, caso contrário não estávamos cá. Hoje já não choro com saudades de casa porque descobri que o meu conceito de 'casa' é mais amplo do que aquilo que eu julgava. Hoje sei que estou em casa. Na casa que eu escolhi viver. 

[nota: post agendado, estarei fora de Lisboa e sem acesso à internet. Um 2015 fantástico para vós, com muitas alegrias, sonhos realizados e amores daqueles pra vida toda. Até daqui uns dias, pessoas :*]

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