28 abril 2015

Ahhh, as saudades!

Só quem é (ou já foi) imigrante num país distante sabe como é lixado esta coisa de gerir saudades. Uma coisa é a pessoa mudar para um país aqui ao lado, no mesmo continente, que em 3 horas se mete em Portugal. Outra coisa, bem diferente, é viver a mais de 7000km da nossa família, que está em outro continente, com um oceano inteirinho a separa-nos (e bilhetes de avião caros como tudo!).

Perco tanta coisa... perco casamentos, baptizados, festas de aniversário, perco a convivência diária e a intimidade que só se conquista no dia-a-dia. E mais do que tudo, perco os últimos anos de vida da minha avó (não há um único dia em que não pense nisso) e sinto que são momentos que nunca mais voltarão. Na semana passada nasceu o filho do meu primo preferido e mais uma vez, não estive presente. Não há skypes, facebooks e cenas do género que consigam imitar a realidade: o cheiro, o toque, o abraço, o olhar... nunca será igual.

E é nessas horas que lembro-me das palavras do meu pai e a dúvida instala: será que vale a pena? Perder os melhores anos de convivência com a nossa família, perder acontecimentos especiais e passar a ser-se um espectador distante? Até hoje, sempre achei que sim, que valia. Agora já não sei, tenho tantas saudades da minha cidade... De poder falar à minha maneira, usando as expressões que me saem do fundo da alma, as gírias tão tipicamente cariocas e que só uso em casa, com a família. O cheirinho de praia, dos biscoitos que adoro, o som do mar, o sotaque arrastado, cheio de "s" com som de "x", a alegria contagiante de quem não tem um tostão no bolso mas tem uma cidade linda para morar.

Cada vez que o M. me fala em filhos, penso nisto. Se vou querer criar uma criança como um bicho numa jaula, enfiado num apartamento, cheio de tecnologia e modernidade mas... sem correr na lama, sem subir em árvores, sem soltar 'pipa' na praia, sem brincar na rua, como toda criança deveria fazer. As crianças no Rio brincam de forma diferente, são mais espontâneas, soltas, desenrascadas mesmo. Mas depois vem o outro lado, os perigos, a violência, os assaltos... A verdade é que a cidade perfeita não existe, é uma pura utopia. Resta-nos saber escolher onde viver e saber até que ponto estamos dispostas a abdicar de certas coisas.

Como eu costumo dizer: a minha vida de sonho é viver  6 meses no Rio, 6 meses em Lisboa. Enquanto esse dia não chega, resta-me trabalhar muito para ver se um dia chego lá perto ;)


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5 comentários

  1. Ahhh mas se vais p RJ vai ser o M. a ficar cheio de saudades da família dele...
    A violência é d+, ouço relatas horripilantes mesmo em zonas consideradas seguras! MEDO!

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  2. Anne, era assim mesmo que eu estava criando os meus filhos no RJ, feito bichos numa jaula de luxo, com todas as tecnologias e modernidades que era o nosso apartamento. Sair de casa e ir para a escola era uma neurose, eu não podia parar em sinais sem o stress de ficar à espreita dos perigos.
    Isso já foi há quase 15 anos...
    Troquei o Rio por Cascais por motivos profissionais, eles cresceram perto do mar, foram para a escola (pública!) a pé e sozinhos.Também iam à praia sem nós, só com amigos, e até hoje, já adultos, não fico desesperada se souber que um deles vai chegar em casa depois das 23 horas. E podem usar os transportes públicos. Sei que a chance de chegar inteiro e vivo é muito maior do que se estivessem lá.
    E juro que fiquei chocada com o desenrascanço e espontaneidade das minhas sobrinhas de 12 e 15 anos. (ai valha-me Deus, tudo gente de boa família...)
    Mas a gente não pode ter tudo, né? A família ficou mesmo em segundo plano...

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  3. Eu estive imigrada, três anos, a 170km aprox. de casa e já foi tão complicado... imagino que vai para fora do país. :(

    1 beijo,
    http://umblogsoparamim.blogspot.pt/

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  4. Anne, vivo a 27 km da cidade onde nasci e cresci (claro que nem se compara ao teu caso né) e o que sinto mais falta é da praia e do mar. Sou sem dúvida fã do litoral, cidade sem mar não tem graça nenhuma! No teu caso tens muitas saudades da tua avó, mas também se vivesses no Rio ias ter saudades da tua mãe e irmãos né? É complicado!

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  5. Não sei se as coisas no Brasil mudaram muito desde que vieste para cá.... vivi lá 3 anos, regressei em Janeiro deste ano. E uma das principais razões para o regresso foi exactamente o que dizes, mas estranhamente pensas que é o que se passa aqui: lá os meus filhos estavam a crescer como bichos fechados numa gaiola dourada. Nunca lá vi uma criança a correr na lama (mas vi-os enfiados nos canais de esgotos com água até ao pescoço para apanharem latas) e a brincar na rua, nem nada do que se pareça... apenas nos parquinhos e sempre com a babá a 50 cm de distância .... ou então na zona de lazer do condomínio onde vivem.
    Não achei as crianças, nem sequer os adolescentes brasileiros minimamente desenrascados... estão sempre com as babás atreladas, que lhes fazem literalmente tudo.
    Cheguei a ver uma funcionária (grávida) do colégio dos meus filhos a agachar-se para atar os atacadores de um marmanjo de cerca de 14 anos.
    Penso que as saudades que sentes estão a começar a pesar muito (acredita que sei como podem ser avassaladoras) fazendo com que quase te esqueças de tantas coisas menos boas, e tantos perigos que o Brasil tem... falas da violência, insegurança.... esqueces-te dos grandes desequilíbrios sociais, da miséria alarmante e chocante em que vive grande parte da população, do número cada vez mais crescente de prostituição infantil, do número galopante de raptos, do nível de vida absurdamente elevado, das doenças tropicais que uma criança pode apanhar com a picada de um mosquito quando está sentada na sala de aulas no colégio, do preconceito racial.... oh Deus como o "brasileiro" é racista.... e tantas mais coisas.
    Que a razão para voltares seja apenas por quereres estar perto dos teus.... porque não é o país ideal para uma criança crescer. A tua mãe sabe-o bem, daí ter decidido sair de lá.
    Bjinhos
    Iris

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