11 junho 2016

game over.

Não tenho tido cabeça nem ânimo para escrever nada por aqui. Agradeço de coração todas as mensagens que me vão chegando (seja no Instagram ou por email), vocês fazem isto da blogosfera valer a pena. Infelizmente a minha avó perdeu a batalha e faleceu na semana passada. O cancro espalhou-se, ela entretanto deixou de comer e no IPO colocaram-lhe uma sonda nasogástrica (queríamos a PEG mas acharam que seria um risco dada a situação dela) e os médicos foram unânimes: não havia mesmo nada a fazer.

Fiquei desesperada, queria que o chão se abrisse diante de mim. Falei com o dr. Jorge Rosa Santos, com o dr. Daniel Sousa - ambos do IPO - e disseram-me para levá-la para casa e dar-lhe toda a assistência possível mas que esquecesse a ideia da Radioterapia porque isso seria o fim para a minha avó. Não satisfeita, fui ao Champalimaud, tive consulta de Radioterapia com o dr. Marco Possanzini para avaliar se era mesmo verdade aquilo da Radioterapia no Champalimaud ser mais avançada e ter menos efeitos secundários. Tretas, é de facto mais avançada mas os efeitos continuam a existir e não estavam dispostos a realizar a Radioterapia numa paciente de 82 anos com metástases.

Odiei todos os médicos naquele momento. Todos, sem excepção. Como era possível que não houvesse alternativa? Como era possível que já houvesse manchas no pulmão? Em tão pouco tempo... revoltei-me imenso, sentia-me a sufocar com o tempo a passar, a minha avó a piorar de dia para dia (estive duas semanas sem pisar no trabalho, a cuidar dela todo o tempo) e eu melhor que ninguém via todos os efeitos do cancro no corpo dela. Na última semana ela já usava fraldas, cadeira de rodas, alimentava-se por sonda (a primeira vez que a alimentei por sonda jurava que me dava um fanico, aquela coisa de aspirar a comida do estômago para voltar a pôr lá dentro é de arrepiar!), enfim... já não se parecia com a avó que eu conhecia. Pesava 42kg, muito fraquinha, a voz era um sopro. Mesmo assim, num pensamento egoísta como tudo, eu ainda a queria cá. Desde miúda que me lembro de pensar "Meu Deus, um dia a minha avó vai morrer e eu não vou saber viver sem ela..." e eu chorava só de ter esse pensamento. E hoje ela não está mais cá e eu continuo sem saber como viver sem ela. É uma dor monstruosa, um sufoco!


Apesar de tudo, sinto-me uma privilegiada por poder ter estado com ela até o final, por ter lhe feito festinhas na cabeça durante as madrugadas em que ela sentia muita dor, por lhe ter dado o café que ela me pediu baixinho (o médico tinha proibido bebidas quentes), por lhe ter pintado o cabelo quando ela disse que nem morta que iria ao médico com a raiz branca a ver-se. Tive a felicidade de ser amada de uma forma incondicional pela minha avó, acredito piamente que ninguém nesse mundo vai sentir por mim o amor que ela sentia (e que eu retribuía na mesma intensidade): Minha avó é meu porto-seguro, meu amor mais doce, a voz que acalma todas as minhas tempestades. E não, não falo dela no passado porque ela continua presente em todas as minhas recordações e naquilo que sou hoje. Meu amor maior.

Não foi fácil cuidar dela tão debilitada (acabei por ganhar uma dor ciática que nunca tive na vida - resultado do esforço de estar sempre a pegar nela para dar banho, virar na cama, etc), eu nunca tinha cuidado de ninguém acamado, morria de medo de me enganar nos remédios, de esquecer da hora de alimentá-la pela sonda, de entupir a sonda, dela deixar de respirar enquanto dormia... Posso dizer que dormi muito pouco nestes dias e ganhei um sono tão leve que com qualquer barulhinho eu acordo (logo eu que dormia como uma pedra!). Foram duas semanas intensas mas eu faria tudo de novo, aguentaria qualquer coisa, ela nunca foi um fardo para mim, antes pelo contrário: estávamos sempre a conversar, a ver novelas, ela a fazer as suas sopas de letras... já tenho tantas saudades que sinceramente não sei como se aguenta uma perda destas. Está muito difícil, é uma dor inexplicável, mas sei que Deus vai me dar a força necessária para compreender e aceitar. Obrigada pelo apoio que têm dado deste lado :) Peço-vos duas coisas:

Amem os vossos com todo o coração, demonstrem que são especiais, não percam tempo nem tenham vergonha: digam que amam, que sentem saudades, que com eles a vida é mais colorida!Nunca deixei de dizer o quanto a minha avó era essencial na minha vida, sempre demonstrei isso e não tenho nenhum remorso agora que ela se foi (ao contrário de alguns membros da minha família que deixaram imenso por fazer e por dizer...). O remorso corrói a alma por isso amem sem limites e demonstrem sempre!

E o segundo pedido é o de praxe: larguem a merda do tabaco! Por vocês mas principalmente por quem vive com vocês e não tem escolha a não ser respirar esse fumo cancerígeno. Por favor? Façam um esforço e vão ver que tudo melhora: a pele, os dentes, o hálito, o bolso... e ainda vos sobra mais dinheiro ao fim do mês (sim, que o tabaco é caro pra chuchu) para gastarem numa boa viagem no fim do ano. O que vos parece?

SHARE:

32 comentários

  1. Anne sinto muito. Nada se perde e tudo se transforma. Esse amor não se perdeu, e a maravilha de acreditar em Deus é também a certeza que nos reencontraremos. Ânimo e coragem. Deus está contigo e a sua Avó, estará sempre viva em ti.

    ResponderEliminar
  2. ANNE estou sem palavras ao ver sua avo revivi toda a dor que passei com meus pais. A minha mae ainda so 3 meses. Nunca mais vamos ser as mesmas pessoas .Meus sentimentos pra sua mae e anne e toda a familia beijinhos.

    ResponderEliminar
  3. Sinto muito Anne muita força e coragem para si e para sua família. A saudade essa não vai morrer nunca mas a dor essa vai tornar-se nas boas lembranças que tem da sua avó.

    ResponderEliminar
  4. Lamento mesmo muito, sempre notei o carinho que tens por ela. Devia ser uma pessoa maravilhosa. Um beijinho grande

    ResponderEliminar
  5. Anne, em muitos anos de atividade online está é a segunda vez que faço um comentário. A 1ª, quando da chegada da sua Avó, recentemente, e agora que ela partiu. Tenho acompanhado as suas aventuras e dei por mim, muitas vezes, a correr para o Centro Comercial porque falou de descontos ou a entrar na secção das oportunidades do IKEA só porque havia falado disso. Agora, nesta fase, tenho vindo saber se havia novidades, sempre a temer o pior. Não há palavras, neste momento, que possam aliviar a sua dor. Talvez, apenas, saber que esse Amor é eterno e que tudo vez para o demonstrar. O tempo será amigo no atenuar do sofrimento. Obrigada por partilhar as suas alegrias e tristezas. Acredito que todos os que a lêem estão solidários com a sua dor. Um abraço virtual, mas sentido. Força, Anne! Ela estará sempre consigo, a zelar por si e por todos os que ama!

    ResponderEliminar
  6. Os meus sentimentos. Ser uma voyeur da vida dos outros, ainda que com boas intenções, também nos faz sentir a sua perda. Para quem perdeu todos os avòs muito jovem, sabe que a idade lhes adoça o amor e a paciência para a parvoíce e irreverencia, encarando com a maior ternura as tropelias próprias da juventude. Um beijinho
    C

    ResponderEliminar
  7. E nasceu uma uma nova estrela no céu. ❤

    ResponderEliminar
  8. Anne, após anos a seguir o seu blog. A viver o entusiasmo com que escreve. Deitei lágrimas a ler, como se fosse minha a dor. Virei para o meu homem e disse "e se deixasses de fumar?". Muita, muita força!!

    ResponderEliminar
  9. Muita força para ti. O primeiro ano é muito duro. A partir dai comecamos a lembrar-nos primeiro dos bons momentos e só depois da partida.
    Um dia de cada vez tem de ser o teu lema. Encontra algo em que te possas ocupar (correr ajuda).
    Beijinhos
    Rita

    ResponderEliminar
  10. Olá Anne, realmente há anos que sigo o teu blog, que adoro.... nunca comentei nada, nem sei bem porquê.... mas hoje não me sentia bem comigo senão o fizesse. Um abraço do tamanho do mundo, muita força p'ra ti e família. Que Deus lhe dê o merecido descanso... beijinhossssss

    ResponderEliminar
  11. Cada palavra que aqui escreveste podia ter sido escrita por mim. Deixei uma msg no teu insta (com o meu pessoal) e volto a dizer que és das pessoas que eu leio e vejo no vosso amor o mesmo que existiu e existira sempre entre mim e a minha Avó. Nunca existirá ninguem que me ame nem que eu ame assim. As vezes acho que ninguem entende mas depois leio-te e sei que afinal alguem sente o mesmo. A saudade ê suficante mas as memórias dão ar ao nosso coração. Força minha querida. Um beijinho enorme

    ResponderEliminar
  12. 🙏🏻🙏🏻🙏🏻🌹🌹🌹
    Muita coragem fé e força. 🙏🏻🙏🏻🙏🏻😘

    ResponderEliminar
  13. Ó Anne... Tenho um enorme nó na garganta. Tenho a certeza que vais encontrar um equilíbrio entre a lembrança, o amor maior, a dor e a saudade.
    Um abraço.

    ResponderEliminar
  14. Anne sinto muito. Foi tao de repente, nem deu para comecares a mentalizar-te e a amadurecer essa possibilidade. E muito duro. Admiro a tua coragem de teres sido tu a cuidar da tua avo, quando a minha estava doente (eu tinha 12 anos) nem coragem tinha para a ir visitar e sei que lhe faltei muito, nem sabes o quanto isso me doi. E preciso muita coragem para lidar com uma situacao que nao queremos que seja verdade. Fizeste tudo o que pudeste.

    ResponderEliminar
  15. Anne, há anos que te leio mas nunca comentei. Foste alegrando muitas vezes os meus dias com os teus posts. Hoje não podia deixar de comentar. Perdi a minha avó dia 24 de Maio, e revejo sempre a ligação que tinha com ela em tudo o que escreveste e escreves sobre a tua avó. Também eu sinto e sei que ninguém me amou como ela, de forma tão absoluta e incondicional e doce. Ela esteve acamada 6 anos, grande parte dos quais sem reconhecer ninguém, de fraldas, a ser alimentada à seringa. No final houve muito sofrimento, sofrimento que ninguém merece. Mas como a ti resta-me a serenidade de saber que foi acompanhada e muito amada até ao fim, e que a morte é apenas uma passagem e um até já. Lamento profundamente a tua perda, e desejo do fundo do coraçao que o tempo suavize a tristeza e a saudade até a memória dela te fazer apenas sorrir novamente. Ela estará sempre contigo, tenho a certeza. Beijinho grande, Alexandra M.

    ResponderEliminar
  16. Sei que todas as palavras são vans neste momento mas envio o meu sincero carinho e amor e muita energia para conseguir continuar a viver intensamente como até aqui, não se esqueça de Viver a vida todos os dias!
    Um grande abraço
    Isabel

    ResponderEliminar
  17. Anne, sinto muito pela morte da tua avó, eu Deus te dê muita força. Um beijinho grande de Cabo Verde.
    Marcelina

    ResponderEliminar
  18. Um beijinho e muita força nesta hora!

    ResponderEliminar
  19. Anne, tenho muita pena que este tenha sido o desfecho. Tiveste muita sorte por teres uma avó como a que tiveste, mas ela não teve menos ao ter uma neta amorosa e dedicada como tu.
    Beijinho.
    Fedra

    ResponderEliminar
  20. Tens uma estrelinha a olhar por ti ❤
    Muita força!

    ResponderEliminar
  21. Lamento muito a sua perda!
    Muita força Anne!
    Cláudia F.

    ResponderEliminar
  22. Um beijinho Anne, é horrível perdermos quem amamos mas é inevitável :( Muita força. Ana M. (uma leitora que gosta muito do blogue)

    ResponderEliminar
  23. Tenho os olhos marejados de tantas lágrimas. Sei bem o que é cuidar intensamente de alguém que amamos. O meu avó está acamado à 8 anos. Há dias melhores, outros muito maus. Os últimos vão sendo difíceis, cada vez com o fim mais perto. E sei bem o que é essa sensação egoísta de não querer ficar sem eles, mesmo que muitas vezes o sofrimento seja tão grande que seria o melhor.
    Muita força. E é isso mesmo, temos de nos amar sem limites =)

    ResponderEliminar
  24. Sinto muito a vossa perda, mas agarra-te aos bons momentos e às memorias felizes. Foste uma super neta e no meio da tristeza do fim (raio de doença) certamente ela sentiu-se bem por estar convosco

    ResponderEliminar
  25. Minha querida Anne,

    Lamento mesmo muito... estive uns dias de férias e assim que regressei lembrei-me da tua avó e vim ver as novidades, que tristeza nunca imaginei que fosse tão rápido :(

    Sei bem do que falas quando dizes que sempre te custou pensar que este dia poderia chegar e de repente chegou, lembro-me desde pequenina de sofrer por pensar que um dia a minha mãe poderia morrer e quando aconteceu (demasiado nova, apenas 47 aninhos)tive a sensação que o mundo ia acabar, mas os dias vão passando e com o tempo a dor diminui e vai ficando apenas a saudade e o vazio, pois aquele espaço no coração nunca mais fica preenchido :(

    Quero deixar um beijinho muito grande e um abraço apertadinho para ti e para a tua mamã.

    Andreia Faustino

    ResponderEliminar
  26. Há muito pouco a dizer/escrever nestes momentos tão difíceis, que não compreendemos. Só posso dizer que, de coração, lamento muito a vossa perda. Um grande abraço ainda que virtual e muita força, coragem e lembre-se sempre de como foi privilegiada por ter consigo alguém tão especial. Beijos

    ResponderEliminar
  27. Os meus pesames. É muito triste.
    Coragem pois a saudade vem cada vez mais forte :(

    Medy

    ResponderEliminar

© A GAROTA DE IPANEMA . All rights reserved.
MINIMAL BLOGGER TEMPLATES BY pipdig