03 julho 2016

1 mês. 30 dias. 720 horas. 43200 minutos. Sem ti, avó.

Ainda não consigo acreditar. Na verdade, acho que só estou assim tranquila e aparentemente 'conformada' por que ainda não acredito que nunca mais vou te ver, abraçar, ouvir a tua voz que sempre me acalma... A impressão que tenho, avó, é que estás no Rio e que assim que lá meter os pés vais ter comigo ao aeroporto e vamos percorrer as ruazinhas do centro em busca das nossas pechinchas. Hoje faz um mês, avó. Um mês desde aquele dia em que tu me disseste: "rápido, vamos para o hospital. A ambulância ainda demora?" e eu apanhei um susto de morte. Porque foi a primeira vez na tua vida em que pediste para ir ao hospital. Tu, a mulher que teve dois filhos de parto natural em casa, a mulher que tinha pavor de hospitais, que por duas vezes esteve internada e conseguiu a proeza de fugir em ambas, sempre pelo teu próprio pé, ainda de soro espetado no braço.

Naquele momento, avó, eu percebi que tinha te perdido. Que já não eras tu, ali, cheia de dores, com uma dificuldade enorme em pronunciar as palavras, num sofrimento que me fazia querer morrer. Eu queria qualquer coisa que te aliviasse as dores, qualquer remédio, qualquer tratamento... qualquer coisa para que não sofresses, menos a morte. Eu sei, é egoísmo meu, mas eu queria que estivesses sempre comigo. Eu não aceitava que um dia me fosses deixar e tu sabias disso.

Lembro-me de uma vez, há uns anos, termos falado sobre a morte (assunto que tu evitavas a todo o custo) e eu perguntei-te se tinhas medo de morrer. A tua resposta foi: "medo? não tenho medo, todos vamos passar por isso, é o percurso da vida. Mas tenho medo por que sei que você não vai ficar bem e vai dar muito trabalho à sua mãe".

É verdade, vózinha. Eu nunca mais vou ficar bem. Nunca mais. Pode parecer radical mas nada mais é como antes para mim. Já não quero comemorar mais o natal, nem árvore vou montar, não tenho ânimo para nada disso (e tu sabes o quanto eu sou maluca pelo natal). Tento disfarçar, esforço-me para ser feliz, para viver a minha vida como sempre foi mas é impossível. Nada mais será como antes, a tua morte dilacerou-me de uma forma insuportável. Penso no futuro sem ti e desespero-me. Ainda nem tenho 30 anos e já estou sem ti. Se viver até aos 70 anos, serão 40 anos sem te ver. É tanto tempo! Eu fiz tantos planos para nós, eu não aceitava a tua (nossa) finitude, sempre tive problemas em lidar com a morte e sempre tive pavor de imaginar ficar um dia sem ti.

Foi uma morte tão estúpida, tão sem sentido... Sempre imaginei que morrerias com um problema qualquer de coração (que sempre foi a tua única mazela) mas um cancro? Um cancro aos 82 anos? Nunca pensei, avó. É difícil aceitar e sinceramente, acho que se não acreditasse tanto em Deus, já teria ficado doida. Mas não estou revoltada com Deus, antes pelo contrário. Sinto-me abençoada por ter tido a experiência incrível que foi viver todos estes anos contigo, foste e sempre serás a melhor avó do mundo, o meu xodó.  Sempre.

(em Outubro do ano passado a minha prima gravou esse vídeo com o telemóvel, sem a minha avó perceber. "Ela acha que vou ser imortal", disse a minha avó. E eu achava mesmo. Quem me dera...)

Pra sempre. from A Garota de Ipanema on Vimeo.

Foi a melhor avó do mundo, sem dúvida alguma. Foi avó, foi mãe junto com a minha mãe, foi o pai que sempre esteve ausente, foi tanta gente ao mesmo tempo, tantos personagens que a minha avó sabia ser! Uma parte de mim morreu junto com ela e sei que nunca mais vou ser a mesma pessoa. Sei que a amei desesperadamente, um amor que nunca teve limites (nem terá fim). Cuidei, amei, me dediquei... até ao fim. E ainda fiz pouco, tão pouco, diante de tudo o que ela sempre representou para mim.

(é incrível pensar que este vídeo foi gravado seis meses antes da descoberta do cancro. A minha avó estava óptima, saudável, normalíssima... e entretanto seis meses depois pesava 38kg, não conseguia engolir, estava alimentada por sonda e a usar fraldas. Maldita doença! E agora que vejo com atenção o vídeo, lembro-me que há uns três anos a minha avó começou a ter uns engasgos mas o cardiologista na altura atribuiu-o ao coração e aos remédios que ela tomava. E já era um sinal do cancro na garganta... doença miserável!)
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9 comentários

  1. Querida, eu sei que é muito difícil, também perdi a minha mãe para o cancro e sinto-me sem chão sempre que penso nela. É uma dor terrível mas pensa numa coisa: a tua avó tinha certeza do teu amor! Vejo o video e até pela maneira dela falar de ti, nota-se um amor enorme. Ela tinha a plena convicção do teu amor! Soubeste demonstrar como ela era especial para ti e isso não tem preço.

    Agarra-te às boas recordações, estas ficarão para sempre. Um grande beijinho

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  2. Anne perdi a minha mãe há doze anos atrás, tinha eu 26 anos e nem consigo pôr em palavras o que passei. Hoje continuo a ter saudades, a chorar quando a falta parece que me sufoca mas é verdade quando dizem que o tempo ajuda. Um beijinho para si

    Anauel

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  3. Anne, eu perdi o meu Pai. Sei por infeliz experiência, que não há nada que eu possa dizer ou fazer, que cure a tua dor.
    Não te vou dar a chave, fazer magia, dizer-te nada que ainda não saibas. As tuas respostas, encontrá-la-às em ti própria e a seu tempo.
    Mas a vida segue Anne.
    Somos muito mais fortes do que pensamos ser.
    Acreditar, ter fé, não cura, mas dá-nos forças para seguir.
    Todos nascemos com uma missão. Quando alguém parte, não vai, nem nos deixa sozinhos. Leva um pedaço de nós, e deixa em nós um pedaço de si. Não há melhor homenagem, melhor forma de lembrar, que aquela que é perpetuar a sua missão na nossa própria missão de vida, com o muito que nos deixaram, nos ensinaram. Fazer das histórias, dos nossos momentos, forças. Das recordações, um privilégio de ter-mos sido participes delas, de serem NOSSAS! Isso é continuar a dar vida, a outra vida. Provar que isto não acaba aqui.
    Hoje dói, nem sabes quanto dói, um elevado ao infinito. Amanhã continuará a doer, um elevado a mil milhões, e depois, e depois, e depois... até que um dia, não te conformas, não irá doer menos, mas aprendeste a viver com essa dor. Vai estar sempre lá, em pararelo. A seu tempo, aprenderás a viver com ela, sem que te tulhe os movimentos. Em que consigas voltar a celebrar o Natal. Não irás viver de uma forma pior, apenas diferente. Asseguro-te, assim sera...
    Não tenhas pressa. Toma o teu tempo.
    E quando estiveres triste, lembra-te que não há melhor meio de comunicação, que o coração. Fala com Ela com o coração. Se a nossa voz chega a Deus, de certeza que lhe chega a Ela, que está lá. Lembra-te as vezes que forem necessárias, que estamos aqui só de passagem, e um dia nos voltaremos a reencontrar. Tanto, não pode ser em vão, acabar aqui. E enquanto isso, dar o nosso melhor. Foi para isso que nos deram tanto. Para ser-mos capazes de continuar.
    Um beijo, Sofia.

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  4. Sempre que te leio, leio-me. É tão duro. Por aqui passou um ano e sete meses :(

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  5. Maldito bicho que rouba quem mais amamos.A mim,foi o meu tudo, o amor da minha vida. Estou dormente, após 3 meses continuo sem acreditar que Deus o tirou de mim. Como alguém escreveu "queria ter uma escada para o céu para o ver todos os dias"

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  6. Quanto mais tempo passar mais saudades vais sentir.como eu te conpreendo.beijinhos

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  7. Pois é assim mesmo como já disseram as meninas acima, saudade não passa, só aumenta. Mas a gente aprende a viver com ela. Nada ocupará o seu lugar, nem os filhos que virão. Fale dela, faz bem.
    Ainda tenho avó, é tão porra louca quanto a sua, mas já vi meu pai partir. Continua a ser difícil.

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  8. É verdade, eu sei que se está a sentir assim mesmo, escondemos a nossa dor para não aumentar a dos que nos são próximos e passamos momentos muito dolorosos e solitários com uma dor tão profunda que parece que nunca vai passar, mas a dor passa acredite a saudade não. Anne deixo-lhe aqui um conselho se achar que se está a afundar nessa dor não sofra em silêncio que só agrava a situação, procure um profissional que a ajude a ultrapassar o luto vai ver que se vai sentir melhor, eu sei que talvez não seja isto que disse aqui que espera e que vai achar inútil procurar essa ajuda, mas acredite se achar que não consegue e que a carga é demasiada não deixe que a dor aumente e procure ajuda, as compras e os saldos não a vão salvar eu sei porque também fiz o mesmo esses momentos trazem alivio devem estar presentes ajudam com a ansiedade que sentimos mas não curam a dor.
    Procure ajuda se achar que não vai aguentar, por si e pela sua família, um grande beijinho acredite se eu pudesse faria com que essa dor desaparecesse a qualquer um que a sentisse por saber quanto avassaladora ela é por experiência própria.
    Vá coragem menina enfrente isso a vida da sua avó terminou infelizmente, mas a sua não e pense lá acha que ela a queria ver assim nesse desespero, é claro que não.

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  9. A dor agora é imensa, mas um dia vai acordar e em vez da dor só ficará o sorriso que lhe encherá os lábios cada vez que um objecto, um cheiro, uma expressão, um lugar lhe trouxer a imagem dela. <3
    Um beijinho em si.

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