14 setembro 2016

Da falta que ela me faz.

Ontem, pela primeira vez desde que me lembro, arrumei as malas para viajar sem pegar no telefone para falar com ela. Era o nosso ritual: sempre que estava a preparar-me para viajar, só conseguia fazê-lo se falasse com a minha avó. Ligava-lhe a dizer "Vó, tô indo viajar..." e ela respondia: "de novo? Essa garota pensa que é passarinho, só quer saber de voar... Toma juízo, não fica viajando pra lugar perigoso..." e eu lá explicava-lhe que não era perigoso, que ficaria tantos dias no país X ou Y e quando chegasse lá enviava uma mensagem para dizer que estava tudo bem.

Assim que aterrissava, ela era a primeira pessoa em que eu pensava em ligar! Por que sabia que, para a minha avó (pessoa humilde, sem grandes estudos - só tinha a 4ª classe), isto de viajar de avião para outro país era toda uma aventura perigosíssima. Então lá a acalmava e a chamada terminava sempre do mesmo jeito: "Vai com Deus minha filha, que Ele te abençoe". E só depois disso é que a viagem começava para mim. Só me sentia segura se a minha avó me desse 'a benção', é uma coisa infantil, mas me fazia ter a certeza que tudo correria bem, como se ela também estivesse comigo ali.

E ontem, pela primeira vez, fiz as malas sozinha. Não teve ninguém para me chamar de 'zinha' ou de 'pé comprido' (as alcunhas que a minha avó me chamava), não teve ninguém para me dizer 'leva um casaquinho, nesses lugares esquisitos pode fazer frio', não teve conselho, nem aviso. Só teve uma saudade enorme, monstruosa, que me fez ter a certeza que a vida mudou de maneira irreversível. Que nunca mais vou ouvir a minha velhinha, ela se para sempre. Às vezes ainda parece tudo irreal para mim, parece que vou chegar ao Rio de Janeiro e vou tê-la à minha espera no aeroporto. As pessoas dizem que não há ninguém insubstituível, que a vida tem que seguir de qualquer jeito, que é a lei natural das coisas.



Mas ela era insubstituível para mim. Não há outra pessoa nesse mundo que possa preencher o buraco que a morte da minha avó deixou em mim. Me sinto órfã, perdida sem ela. Esforço-me todos os dias para continuar a ser feliz, a ver graça nas coisas, tento fazer as coisas que gosto, viajar, fazer compras, sair com amigos mas falta sempre qualquer coisa. Sinto-me incompleta e não há forma dessa sensação ir embora. Eu sabia que ficar sem a minha avó seria difícil (ela própria dizia a toda a gente: o meu medo não é morrer, é morrer e deixar a Anne por que sei que vai ser muito difícil para ela), mas nunca pensei que seria esse sufoco, essa dor que me faz chorar à toa sempre que me lembro dela, essa saudade que não me permite pensar sequer na minha avó sem sofrer. É muito difícil, especialmente pela rapidez com que as coisas se desenrolaram. Nem tinha conseguido assimilar a direito a ideia de que ela estava doente e já estava feito maluca a procurar especialistas, a falar com médicos em outros países, a virar-me em três para dar conta de tudo e no final, de nada adiantou. Há dias de merda e hoje é um deles para mim.
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4 comentários

  1. Não vai passar nunca a saudade, por aqui já são sete anos e não há um dia que não me lembre da minha avó. Faz-me falta todos os dias. Mas chega uma altura em que vais conseguir pensar nela sem virem as lágrimas aos olhos, em que uma memória te vai fazer rir e devagarinho a dor grande transforma-se num sentimento diferente e vais conseguir perceber que, maior que a dor de não a ter cá, tivesse uma sorte imensa em a teres tido na tua vida <3

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  2. Conheço a sensaçao, perdi a minha mae em menos de um ano também para essa puta dessa doença e o vazio ENORME nao desaparece nunca... tenho mesmo a sensaçao que aumenta de ano para ano...

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  3. TAO VERDADE.Desde que perdi meu pai e minha mae nunca mais foi nada igual.beijinhos.

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  4. Perdi a minha avó, para mim mais que minha mãe aos 18 anos. Um ataque cardíaco fulminante. Foi comigo que ela passou as últimas horas da vida dela, as duas a cozinhar e a conversar.
    Hoje tenho 47 anos e sinto cada vez mais a sua falta. É dela que me lembro e preciso nos momentos mais complicados. Resta-me o consolo que ela esteja a olhar por mim, algures, e a proteger-me. Um beijinho e muita força.

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