11 outubro 2016

Cancrofobia.

Não sei se a palavra existe, não me dei ao trabalho de pesquisar, mas exprime aquilo que eu e a minha família passamos a sentir desde que a minha avó se foi assim de repente: um medo absurdo de virmos a desenvolver cancro. Isto de vermos alguém que amamos mais que tudo desaparecer em coisa de semanas (nem chegou a um mês e meio) é traumatizante, é algo que nunca se esquece.

A minha avó não tinha qualquer sintoma, fazia os seus exames regularmente, não fumava, não bebia, não tinha qualquer histórico de cancro e numa simples consulta de otorrinolaringologia (onde ela se queixava de dor de ouvido) foi-lhe diagnosticado um cancro em estado terminal, já com metástases à distância. Foi o choque da minha vida, os piores tempos de sempre.

Com tudo o que aconteceu, andamos todos alertas ao menor sinal. Repito: andamos todos assim, paranóicos. Há uns tempos vi uma nódoa negra na perna da Vi, perguntei-lhe se tinha caído/magoado, se doía ao apertar... ela dizia que não a tudo. Pronto, na minha cabeça veio logo uma palavra: leucemia. No dia a seguir fui com ela ao laboratório fazer análises. Não era nada, a miúda estava impecável, provavelmente bateu nalgum lado e não se lembrava.

Antes de ir de férias fui fazer uma massagem anticelulítica na barriga e a esteticista disse-me que tinha uma manchinha na barriga, se era recente. Mancha? Só pode ser cancro de pele. Lá fui eu para o google pesquisar imagens, tentar perceber se a minha mancha tinha contornos definidos ou bordas irregulares, se tinha duas cores, se crescia... Depois lembrei-me que há dois dias estava a fritar pastéis de bacalhau com um top curtinho e o óleo quente tinha respingado na minha barriga (e causou uma queimadura que deu origem à tal mancha).

Comentei com a minha mãe que não aguentava viver assim, sobressaltada e ela respondeu-me que estava igual. Se sentia uma dor de cabeça, era um tumor no cérebro a expandir-se. Andamos todos malucos!


Isto tudo para dizer que na semana passada a Vi chegou a casa a queixar-se do joelho direito. Que doída e estava inchado. Perguntamos se tinha caído na escola ou na educação física. Que não, nada se tinha passado. Fui inspecionar o joelho, realmente estava inchado. Colocamos emplastro de voltaren, demos-lhe um analgésico e no dia a seguir ela não tinha notado melhora alguma. Fui ao google pesquisar (sou tão ridícula, acho sempre que a internet tem todas as respostas para as minhas dúvidas) e escrevi qualquer coisa como 'dor no joelho sem causa' e o que me apareceu? Adivinhem lá... Uma palavrinha feia que até agora me arrepio em ler: Osteosarcoma (cancro nos ossos).

Os sintomas eram assustadores e coincidiam com tudo o que a Vi estava a sentir (eu entretanto fui lhe perguntando).
- Dor no joelho sem razão aparente;
- Inchaço;
- Dificuldade em caminhar;
- Dor que piora à noite e impede de dormir;

A Vi confirmava todos esses sintomas. Eu insistia: "Mas a dor é no músculo ou no osso?" e ela dizia: "Mana, é mesmo no osso". Li que o osteosarcoma é comum na adolescência, durante a fase de crescimento, precisamente a fase em que ela está. O tratamento era quimioterapia e a amputação do membro. Entrei em desespero total. Juro-vos, eu estava gelada, só pensava que não aguentaria mais lidar com essa doença, que a minha família já não tem suporte para mais, depois olhava para a Vi tão pequena ainda e comecei a chorar feito maluca. Chamei a minha mãe, contei-lhe das minhas suspeitas, ela entrou mais em pânico ainda e fomos as três para a CUF Infante Santo, às urgências.

Era perto da meia-noite quando fomos atendidas, médica jovem e simpátia, faz apalpações ao joelho da Vi e pergunta-lhe se ela caiu ou assim. Quando ela diz que não, percebo que o olhar da médica mudou. Toda eu tremo nessa hora. A Vi já não aguentava pousar o pé no chão, então a médica pediu uma cadeira de rodas à enfermeira. A minha mãe já não conseguia disfarçar. Olhamos as duas para a médica e perguntamos quase ao mesmo tempo: "Pode ser um tumor no joelho?" e a médica diz que acha pouco provável, que apostava mais num problema no menisco mas que pelo sim, pelo não, iríamos fazer um Raio-X.

A minha mãe acompanhou a Vi até a radiografia, eu fiquei ao telefone com o M. (nessas horas só ele me acalma) e a minha mãe volta já a chorar, a dizer que perguntou ao radiografista se estava tudo bem e ele disse que a médica já nos chamava, o que de certeza que não era boa coisa. A essa hora já a Vi estava assustada (apesar de inventarmos que estávamos a chorar porque os hospitais nos lembravam da vovó), e quando a médica nos chamou vimos que já tinha um ar muito mais descontraído: "não se preocupem sobre aquilo que falámos, está totalmente descartado, a menina tem um problema na rótula, tem a rótula muito solta, vou pedir  uma ressonância magnética e uma TAC desse joelho".

Caímos no choro, eu e mamãe. Alívio, puro alívio! Parecíamos duas malucas a chorar no consultório da médica. Pedi tantas desculpas, expliquei-lhe que ainda estávamos abaladas com tudo o que se tinha passado com a minha avó, que era uma perda recente e a médica, tão querida, disse que compreendia perfeitamente (nem apontei o nome dela, mas era um doce!). Saímos do hospital e viemos o caminho todo até casa a falar sobre o assunto. Estamos mesmo descompensadas e estou seriamente a pensar em terapia ou algo do género que me ajude a superar este medo absurdo que sinto quando penso nessa doença.

Quanto à Vi, na sexta-feira levámos os exames a um especialista (li muitas indicações sobre o dr. Ricardo Varatojo e a duras penas conseguimos uma consulta de urgência na CUF Descobertas) e após analisar os exames, ele disse-nos que a Vi fez uma lesão na rótula do joelho direito (provavelmente na educação física) e que vai precisar fazer fisioterapia durante dois meses e utilizar no primeiro mês uma cadeira de rodas (não pode pôr o pé direito no chão) e depois, canadianas. Disse ele, a brincar, que ela vai estar fina até o Natal, a tempo de pôr a estrela no topo da árvore (que é função dela desde que nasceu). E é isso: a situação é chata, claro que é. Mas não é grave e com cuidado tudo ficará bem. Mas não ganhei para o susto (nem a minha mãe). É difícil não associar tudo, é difícil não recordar de tudo, é difícil... Mas vamos conseguir!

O que vale é que temos uma miúda incrível em casa e são em momentos assim que descobrimos de que material somos feitos. Pensei que seria um drama ela ir de cadeira de rodas para a escola, mas ela nem se incomodou! Disse logo que as amigas fariam fila para empurrá-la na cadeira, que seria divertido, que era só por uns tempos e eu fiquei de boca aberta. Ontem disse-me que precisava de comprar collants de outono e se eu podia ir com ela ao shopping. Respondi que ela não precisava de ir, eu sei o número dela e comprava sozinha. Que não, que ia comigo, que tínhamos que aproveitar a cadeira de rodas para pendurar os sacos das nossas compras. A sério, quem aguenta com ela? Desmanchei-me toda a rir e lá fomos nós as duas. E isto de andar com uma cadeira de rodas merece tooodo um post que depois escreverei.

O joelho direito do tamanho de uma meloa e a cadelinha que não sai de cima da Vi (se deixar passa o dia assim, encostada nela a dormir - desconfio que não compramos um bichon maltês mas antes um bicho-preguiça). E na foto ao lado, a nossa incursão pelo shopping que rendeu boas comprinhas! Agora é ter paciência que logo logo tudo ficará bem :)
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8 comentários

  1. as melhoras para a Vi !
    nunca passei por algo assim, espero que (com o tempo) tudo melhore e acalmem todos esses receios (:

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  2. É um choque muito grande! Imagino que seja difícil para vocês conseguirem abstrair-se dessa doença :/

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  3. É compreensível esse vosso medo mas não podem viver assim. Têm de controlar isso.

    Cátia ∫ Meraki

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  4. Anne,sugiro que entrem em contacto com a Liga Portuguesa contra o Cancro que tem serviço de consultas de Psico-Oncologia para pacientes e familiares.Beijinho e estoub certa que no tempo certo esta experiência se transformará numa bonita inspiração para a vossa vida :)

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  5. As melhoras para a Vi.
    Compreendo o vosso receio. Não deixem que vos consuma :) Procurem ajuda!
    Muita força*

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  6. As melhoras para a Vi. Que tudo corra bem. Pensamento positivo atrai boas energias. Força!

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  7. Anne, como sabes a minha mãe também se foi de cancro. A minha mãe era (e sempre será) a minha alma gémea, o meu porto de abrigo, o meu maior pilar, o meu tudo. Perde-la para essa doença horrível foi avassalador em todos os maus sentidos imaginários.
    E, desde então, ao menor sinal de doença entro em pânico. Tive um problema num nervo (nervo comprimido), tive que ir para as urgências porque deixei de sentir o braço, mas na minha cabeça só saltavam as palavras tumor e cancro. Qualquer dorzinha eu já temo essa filha da puta, desculpa o termo mas há que chamar as coisas pelos nomes, dessa doença.
    Portanto, eu percebo perfeitamente a tua angústia. Ainda bem que a Vi não tem nada de especial e vai ficar bem e ainda mais linda depois de tudo isso. Quando comecei a ler o post juro, assustei-me.
    Por isso olha, há que respirar. Por enquanto estamos a salvo. E estar a salvo, nem que seja apenas por um só dia mais, nós e os nossos,é a maior felicidade deste mundo.
    Um beijinho muito grande.
    lefashionaire.com

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  8. Se foram ao Fórum Sintra imagino o stress para se movimentarem com a cadeira de rodas. Pelo menos é fácil estacionar perto da entrada com o tapete rolante. Já para subir para o 1.º andar... (só mesmo pelo elevador junto ao Gato Preto e é preciso ter sorte e não haver muita gente no passeio). Para almoçar, é para esquecer.

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