27 novembro 2016

Este ano o natal não será o mesmo.

Não consigo (ainda) celebrar. Eu, que sempre fui fascinada por essa época mágica do ano, que contava os dias para montar a árvore, espalhar luzinhas pela casa, pendurar a guirlanda na porta do apartamento, espalhar neve artificial em cima dos presentes... Eu, maníaca pelo natal, confesso-me: este ano o natal não será o mesmo. 

Natal para mim, a par do óbvio sentido religioso, sempre significará família, mesa cheia, gargalhadas, abraços apertados, lágrimas de tanto rir... Esse ano estou mutilada, falta-me um pedaço. Vai faltar sempre, vai doer sempre, vai ser sempre difícil. Mas este ano - o primeiro ano sem ela - é tão duro que nem sei bem como agir. Não me apetece fazer planos para o natal, não me apetece comprar prendas, não me apetece grande coisa relacionada com o Natal.

A minha avó sempre tornou essa época do ano especial, desde que me lembro. Mesmo quando não tínhamos dinheiro para comprar um pinheiro, ela sempre pensava numa ideia: agarrou na samambaia que tínhamos na sala e enfeitou a planta com luzinhas e bolas coloridas. Pronto, estava feito o nosso pinheiro. Era uma mulher que tinha solução para tudo, tinha ideias, dava um jeito, arranjava alternativa. Acho que nisso sou parecida com ela: sou despachada, não me conformo, procuro alternativas. Procurei tantas alternativas quando ela adoeceu... Era capaz de qualquer coisa, implorei a médicos, queria que tentassem tudo, queria que enxergassem nela o que eu enxergava: a melhor pessoa do mundo, a mais doce, mais amorosa, a mais companheira... não há ninguém como a minha avó. 

Natal sempre me lembrará a minha velhinha. As rabanadas que só ela sabia fazer. O bolo de chocolate. O pavê (um doce típico do Brasil). A oração que fazia à meia-noite. Natal simboliza família e a minha ficou incompleta esse ano. Este ano será impossível comemorar o Natal. As pessoas dizem que temos que ser fortes, que ela não gostaria que ficássemos assim mas só eu sei o que me vai cá dentro. As saudades absurdas que sinto, a falta que ela me faz todos os dias e a perspicácia dela até o último momento de vida (e que só o entendi meses depois). 

Este ano o natal não será o mesmo. Assim como eu também não sou.

Mesa do jantar de Natal 2014

[Hoje compreendo perfeitamente as pessoas que 'não gostam do natal', coisa que nunca antes me entrou na cabeça. É natal, é época de paz, de luz, de amor e alegria, como as pessoas podem detestar essa altura do ano? A sério que há pessoas que choram nessa altura? Que ficam deprimidas? Era algo surreal para mim. Nunca antes tinha perdido ninguém na minha família próxima (okey, perdi os meus avós paternos quase no mesmo ano mas eu tinha 6/7 anos e mal me lembro), mas percebi que à medida em que envelhecemos e começamos a notar que nos sobram lugares à mesa (lugares tão especiais!), começamos a achar que o natal perdeu a sua piada. Talvez seja essa a hora de começar a fabricar os novos integrantes da família, para voltarem a encher tudo novamente de cor. Talvez.]
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18 comentários

  1. Eu perdi o meu avô no dia de Natal...imagine a dor. No primeiro ano nem houve como enfeitar a casa para o Natal..
    Já passaram alguns anos, mas a mágoa continua. Por isso compreendo-a perfeitamente.

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    1. Posso imaginar, acho que nunca mais conseguimos encarar o Natal da mesma forma depois de uma lembrança destas... Sinto muito. É uma dor que nunca vai passar, só vai ficando mais fraca e aprendemos a nos conformar com aquilo que, infelizmente, não tem solução. A morte é uma merda.
      Um beijinho.

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  2. Sinto precisamente o mesmo. E, infelizmente, mais nenhum natal é igual depois de perdermos pessoas nossas. :(
    Beijinho e força querida.
    lefashionaire.com

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    1. Catarine, nem consigo imaginar a tua dor. Choro só em pensar no dia em que não tiver cá mais as minhas pessoas, nunca soube lidar com a morte e fiquei ainda pior depois de perder a minha avó.

      O natal é aquela altura que mexe muito com as nossas lembranças mais profundas, é impossível ficarmos indiferentes.
      Um beijinho e muita força para ti também :)
      Obrigada

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  3. Perdi meu pai e minha mae.
    Nunca mais vou ter natal .beijinhos

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    1. Ai Virginia, que murro no estômago. Que dor. Infelizmente é uma dor que, salvo excepções, quase todos nós vamos ter que encarar um dia, é a lei natural da vida: os pais partem antes de nós.

      Não sei como se pode continuar a comemorar datas familiares depois dessa perda mas sei que precisamos encontrar outros motivos para celebrar: nos filhos, nos netos, na vida.
      Um beijinho e muita força!

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  4. Há uns dias falei disso no meu blog, pois perdi o meu pai na época do natal e o meu avô no mesmo ano, só que 2 meses antes. Isto há cerca de 4 anos. Ainda me é difícil celebrar o natal. Desde então nunca mais fizemos a árvore de natal, talvez haja coragem este ano.

    Novo post: 5 Casacos para usar este Inverno

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    1. Que triteza, Juliana. Lamento muito.
      Cada pessoa tem o seu tempo para fazer o luto, eu sinto tudo ainda tão recente que não consigo celebrar nada como deve ser. Acredito que um dia a dor será mais atenuada mas por enquanto ainda é muito duro.
      Espero que este ano consigas sentir novamente a magia do natal (e claro, fazer a árvore). Um beijinho

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  5. Anne

    Quando li o teu post até chorei.... Porque a avalanche de sentimentos que estava guardada veio ao de cima. É assim que me sinto, tal e qual descreves as tuas emoções.
    No meu caso, não é pela minha avó que já partiu há 15 anos, porque é mais fazer o luto de alguém que sabemos que estava aqui a sofrer e que foi descansar em paz, e que já tinha cumprido a missão dela aqui, sinto muito a falta dela, e ela vive em mim, mas a minha grande dor (ou melhor, grandes dores) é não ter aqui os meus filhos, os meus bebés que partiram ainda na barriga. Com eles foi-se a vontade de comemorar o Natal e de tudo relacionado com a época festiva. Deixei de achar piada às decorações porque são só isso, simples decorações, deixei de achar piada às prendas (nunca foi o motivo do Natal para mim, mas sim a família reunida) e com o consumismo comercial que nos entra todos os dias na vida, ainda menos posso com as prendas e afins, porque são só bens materiais, e não é esse o espírito do Natal, que deve ser a família, a união, a reconciliação e luz.
    O Natal para mim passou a ser uma época de tortura, de dor, das maiores ausências das nossas vidas, e de toda a cor e alegria que deveríamos viver. E nada importam as decorações, as prendas e as comidas, se nós faltam bens inavaliaveis, únicos e especiais, cuja a casa já não é a terra, mas o céu. O pouco que faço é oor eles, que mesmo longe não querem a mãe triste, e sei que vão sofrer, por verem a mãe a sofrer. As ausências de quem mais devia estar cá e não está, é horrível, não desejo a ninguém, e não tenho aqui as minhas crianças para pularem, gritarem, rirem, brincarem e iluminarem a nossa noite. E não há nada, mas nada neste mundo que as possa substituir.
    Infelizmente, minha querida, sim, há quem chore no Natal, há quem não veja a magia, há quem não tenha o coração quente, há quem passe esta época a contar os dias para o ano seguinte.... há tantas vidas que não são vividas a 100% porque há ausências que nos mudam para sempre.

    O que te posso dizer mais? Que o tempo não cura a dor, não se esquece e não se passa uma borracha em cima. O tempo ajuda-nós é aceitar a dor e a viver com ela, ajuda a transformar a dor em saudade boa, em que nos lembramos dos momentos bons, do que se viveu e em que aprendemos a agradecer por termos vivido esses presentes aqui na terra, mesmo que por pouco tempo, porque antes ter vivido do que não os ter vivido. E daqui a um ano, ou dois, ou três, sejam lá os que precisares (o luto faz-se para o resto da vida, um dia de cada vez, passa a ser o nosso mote) vais conseguir viver dessas boas lembranças, e elas vão aquecer-te o coração e iluminar a tua alma. Como mãe de braços vazios, digo-te que sim, avança para encheres a mesa com novos membros, porque eles passarão a ser a luz das vossas vidas, e apesar de não irem substituir a tua avó, vais conseguir viver a tua avó através deles, e sabes porquê? Porque de certeza que ela os terá abençoado antes de eles virem à terra, e serão o teu presente vindo do céu. Avança, enche a vida de luz, cor e alegria, e vais recuperar muito de ti, e vais ser muito mais feliz. Tenho a certeza de que recuperarei parte da alegria da minha vida, da xor e do brilho quando tiver os braços ocupados.
    Quero dar-tenho conselho de fazeres estudo para as trombofilias, porque a tua mãe já teve problemas relacionados com uma TVP, teve tratamentos de fertilidade falhados, perdeu bebés na barriga e tu também poderás ser portadora dessas mutações, e não há necessidade de sofreres perdas nos dias de hoje e com a informação que existe. Faz o estudo, se precisares de ser medicada, que sejas, e ao menos vais para a maternidade já informada é acompanhada para não passares por perdas.
    Abre a tua vida ao milagre da vida, é muita dor na tua vida irá acalmar.

    Beijinhos

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    1. Muitíssimo obrigada pelo comentário, emocionou-me também saber um bocadinho da tua história.

      Tens toda a razão, perder uma pessoa com 82 anos é bem diferente do que perder um bebé que ainda não viveu nada da vida, parece injusto até, uma criança recém-nascida morrer sem ter a oportunidade de experimentar a chance de viver. Lamento muito, de coração.

      Acompanhei a minha mãe bem de perto durante as tentativas dela em engravidar e sei como pode ser frustrante tentar, tentar e não conseguir... No caso dela, nunca houve problemas de fertilidade, mas sim uma laqueadura que ela fez aos 23 anos de idade (após o meu irmão nascer) e que depois de alguns anos ao casar de novo, decidiu que queria mais um filho e fez de tudo para conseguir engravidar pela 3ª vez.

      Foi um processo muito duro (que até hoje deixou marcas) mas que nos trouxe a nossa princesa, por isso acredito que tudo valeu a pena. Não sei se o teu problema é parecido ao da minha mãe mas desejo-te toda a sorte do mundo e muita coragem para não desistir perante as tentativas (por vezes precisamos tentar muito para que venha a nossa obra-prima). Vai valer a pena! (se quiseres falar mais e trocar experiências o meu mail é anne@agarotadeipanema.com).

      Desejo muito ter filhos e é um dos nossos projectos para 2017, acredito que vou sentir-me nas nuvens com um bebé ao colo, são a melhor coisa desse mundo!

      Tenho feito vários exames pré-gravidez nos últimos meses mas não tinha ouvido falar desse estudo de trombofilias, vou questionar a minha médica sobre tal. Obrigada pela dica :)

      Um grande beijinho e muita força! Que 2017 traga aquilo que mais desejas :)

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    1. Obrigada :) Força para ultrapassarmos essa fase mais triste!

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  7. Eu perdi a mina mãe o ano passado, pelas minhas filhas e pela gravidez do Manel fiz das tripas coração para fazer árvore, enfeitar a casa, pôr comida na mesa e musica natalicia a tocar.
    A minha vontade era nem sair da cama. Este ano estou melhor mas doi sempre, fico mais em baixo nestas épocas festivas mas pelos miúdos darei sempre o melhor de mim, ainda que por dentro esteja uma lástima.
    desejo um natal feliz dentro do possivel.
    Bjs

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    1. Maggie, é duro mesmo. Só o amor aos filhos para nos fazer disfarçar o que nos vai dentro e por eles acredito que tudo valha a pena, até mesmo as musiquinhas de natal :P

      Um feliz natal para nós (cheio de lembranças boas e saudades... mas sem tristezas)

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  8. O Natal para mim, sempre foram os meus pais. Hoje estou longe deles, e faço um esforço danado continuar a tradição.
    O meu pai, que sempre adorou esta época, sempre disse, "mesmo se morrer nesta época, obrigo-vos a manter a tradição, sob pena de vir cá e castigar-vos se não fizerem". Não morreu, felizmente, mas está longe e doente. e por ele, e por mim, e pelo meu filho faço. Para manter a tradição, para manter as recordações e para fazer umas novas, tão importantes como as antigas.
    Vivo num país com calor, onde o Natal não tem piada, nem tradições. Faze-lo aqui é o manter das minhas origens, da minha comida, mas é para alem disso, o continuar as tradições juntando as novas com as velhas.
    Faça o seu Natal, tenho a certeza (mesmo sem a conhecer), que a sua avó diria o mesmo, e que até diria umas palavras de animo para alegrar. (veja lá na sua memória se ela não teria as palavras certas, use-as e celebre)

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  9. Anne, eu perdi o meu avô há 3 anos. Ele era a pessoa mais maravilhosa e doce que já conheci. Era tão boa pessoa e foi embora tão cedo...
    Há 3 anos que não sou feliz no Natal...
    agora espero o meu primeiro filho (que terá o nome do meu avô) e espero recuperar alguma da magia perdida...
    Beijinho*

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  10. Quando perdeu a sua avó senti a sua dor pelas suas palavras... acompanhei o sofrimento deste lado e imaginava uma dor sem fim ... agora :( infelizmente sinto as suas palavras tambem como se fossem minhas , como se tivesse sido eu a escrever os seus textos pois o sentimento é igual.
    hoje faz 3 semanas que perdi a minha avó( a minha velhinha) ... também numa luta inglória de que não sairia vencedora... o diagnostico foi breve e direto. leucemia mieloide aguda em estado avançado. tem semanas ou meses de vida.
    do diagnostico até... não passou 2 semanas...

    ainda não estou em mim, foi tudo demasiado rápido.
    e agora voltou a fazer todo o sentido ... não ha vontade não ha alegria...

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  11. Este vai ser o primeiro natal sem o meu pai e está a ser duro, nem me apetece falar do natal, se fosse possível passava para o novo ano sem passar por estes dias.

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