17 dezembro 2016

Soubesse eu escrever assim... #3

 Santorini, Ilhas Gregas | Setembro 2016

Dizem-me: Não mostres. Não partilhes. Não contes. No fundo, não sejas tu. Não sejas feliz. Não faças. Não aconteças. Não ames. Não cries. Não componhas, nem te exponhas.
E eu? E eu faço, mostro, caminho, partilho, fotografo, viajo, como, mostro, emagreço, como mais, depois engordo, e tiro mais retratos, a mim, aos outros, ao mundo por onde passo. E amo. Com o coração, com os olhos, com o tacto.
Inveja? Medo? Que venha o mau-olhado. Que se encoste no meu ombro que eu escorraço-o, amordaço-o, mas não me deixo vencer.
Inveja-me se quiseres. Se isso te trouxer mais força, confiança, auto-estima e felicidade. Inveja-me, se quiseres, as fotografias, as viagens, o que visto, o que sinto. Inveja-me os anéis e os dedos, as ancas largas e o passo confiante. Se quiseres, inveja-me também as dores. Compete com as minhas e diz que as tuas doem mais e são maiores. Na realidade, pouco sabes sobre as minhas ou sobre o que me tira o sono. Inveja-me a casa decorada com bom gosto. As paredes cor de café onde tanto se ri, tanto amor se cultiva. 

Inveja-me as leituras, as sessões de cinema, as quadras dos poemas. Inveja-me o carisma, a serenidade. A piada pronta e certeira. Inveja-me a criatividade e, se te apetecer, inveja-me a carteira. Inveja-me as curvas, as do carro e as do corpo. O roupeiro cheio, os sapatos de várias cores. Inveja-me tudo. Que não sobre nada. Inveja-me a alegria, a folia, o dançar disparatado no quarto em frente ao espelho. Inveja-me a mão para a cozinha, o gosto pelos temperos e o fazer tudo de cabeça e sem receita. Sabes, para a felicidade não há receita. Inveja-me as palavras, as gravadas e as por dizer. 

Inveja-me a cor. Os vincos e as veias, por vezes entupidas, que não me conheces, mas invejas ainda assim. Inveja-me, também e porque tens que invejar tudo, a saudade que tenho da infância, de quem já foi e não volta. Inveja-me as qualidades e os defeitos. O cabelo de caracóis, em dias de sorte, perfeitos. Inveja-me os lábios, os dentes, as bochechas e as rugas. A maioria delas, são de rir. Inveja-me os sinais no peito e no coração. Os que marcam quem merece o que tenho e os que afastam quem não pode viver nele. 

Mas, tu, podes invejar tudo. Tu que nada sabes mas que tanto queres saber. Podes fulminar. Podes desconfiar. Podes, ao mesmo tempo, apreciar. Não há desdém que me mate, nem ódio que me arrebate. Inveja o rancor que não guardo de quem me magoou.
E eu? E eu continuo. Eu faço, eu mostro, eu caminho, eu partilho, eu fotografo, eu vingo.
Inveja-me por inteiro, não te acanhes. Inveja-me por completo, não tenhas medo.

Porque, sabes, eu não tenho.

[É das coisas que mais confusão me faz, a inveja. é um sentimento perverso, isto de querer aquilo que o outro tem/é/faz. Não é admiração, não é um 'um dia quero ser assim', não é nada disso... é querer que o outro perca aquilo que tem, é desejar mal, é um sentimento tão mesquinho que por mais que tente, não consigo entender. Admiro muitas pessoas, tenho algumas como 'inspiração', do género: um dia gostava de ser como ela, mas não me lembro de ter inveja. Como eu costumo dizer, as únicas pessoas nesse mundo que me suscitam inveja são: 1) quem come à vontade e não engorda; 2) quem viaja de avião e consegue dormir na boa. O resto? Ah, o resto eu corro atrás e conquisto!]
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