15 dezembro 2016

Um pedido de ajuda muito especial:

No início de Dezembro, como faço todos os meses, fui entregar a minha doação de alimentos na igreja que frequento (sou evangélica). A minha igreja tem uma área voltada para a ação social (que, a meu ver, todas as igrejas deveriam ter) e todos os meses sei para onde vai os alimentos que entreguei (o que nos permite ter a certeza de que tudo foi bem entregue).

Quando fiz a entrega, questionei se os alimentos seriam entregues à uma senhora em particular (que já tinha ajudado em meses anteriores) e me responderam que não, que este mês tinham um caso muito urgente para ajudar, de uma mãe grávida de gêmeos.

Foi o que bastou para que eu colocasse as orelhinhas em pé e pedisse mais detalhes do caso, na esperança de poder vir a ajudar de uma forma mais intensa. Contaram-me o caso e fiquei logo de coração nas mãos. Sabia que tinha que fazer alguma coisa para além de doar comida (que sim, é uma necessidade básica e imediata - mas ela precisava de muito mais). Pedi que me dessem o contacto da rapariga grávida e liguei-lhe para saber mais detalhes da história (algumas partes são difíceis de compreender) e para saber a melhor forma de ajudá-la.

Não quero entrar em grandes detalhes (porque tenho medo de prejudicá-la com a Assistente Social) mas vou resumir para vocês.

Rapariga brasileira, 24 anos, casada, a viver no interior do Brasil. Engravidou, aos 4 meses caiu da escada e perdeu o bebé. Disseram-lhe no hospital que o seu útero estava muito danificado devido à queda e que tiveram que fazer curativos internos que não a deixariam voltar a ter filhos no futuro. Vou optar por chamar a rapariga de Joana* (nome fictício). A Joana acreditou no que lhe foi dito e não tomou qualquer cuidado em relação à futuras gravidezes. O marido sempre trabalhou na construção civil, entretanto fica desempregado. Ela fazia limpezas, fica também sem casas para limpar (o Brasil enfrenta neste momento a crise financeira mais severa de que tenho memória). Têm um primo que vive em Lisboa e trabalha nas obras. Esse primo convida-os a viverem viver para cá, que aqui eles teriam emprego 'garantido' (ele nas obras, ela nas limpezas). Eles vendem tudo o que têm no Brasil (uma mota, alguns electrodomésticos, nada de especial...) e com ajuda de familiares compram as duas passagens em várias prestações. Ela descobre-se grávida quando falta menos de 3 meses para a data da viagem, entretanto já investiram tudo o que tinham (e o que não tinham) na compra das passagens. Decidem vir na mesma. Na semana da viagem ela faz um exame e descobre que está grávida de gêmeos e entra em choque mas... decide viajar na mesma.

Chegaram em Portugal há quase dois meses, estão com visto de turista até Abril/2017. Ele começou a trabalhar nas obras no dia seguinte a ter chegado (e já recebe ordenado, embora o contrato só venha em Janeiro - prometeu o patrão). Ela tentou trabalhar numa loja de chineses mas quando viram a barriga de cinco meses (e de gêmeos) mandaram-na para casa. Vivem num quarto arrendado, num 3º andar sem elevador, na margem Sul de Lisboa. Ela não tem rigorosamente nada para os bebés, não sabia sequer o sexo das crianças, nem tinha feito ecografias.

Agora respondam-me com sinceridade: como uma pessoa segue a sua vidinha como se nada fosse depois de tomar conhecimento dessa história? Eu não consegui. A história da Joana não me saía da cabeça, não conseguia pensar em nada que não fosse ajudá-la de alguma forma. Falei com as minhas amigas, com os clientes da empresa, falei com médicos, com quem conhecia... e começámos numa campanha de angariação de roupinhas e acessórios de bebés.

O primeiro passo foi tentar marcar uma consulta no centro de saúde da área de residência deles mas não tivemos sorte, por eles ainda não terem NIF nem Nº da Seg. Social, disseram que não poderiam aceitar a inscrição dela. Por isso, contactei a minha ginecologista da CUF e marcámos uma consulta no privado para a Joana, fizemos a ecografia morfológica (estávamos todos cheios de medo das crianças não estarem bem) mas graças a Deus estãos óptimos, gordinhos e mexidos. E são um casal! :)

E porquê é que estou a contar essa história? 

Eu respondo. Ontem falei da Joana no instagram e tive imensa gente (muita gente mesmo!) a enviar mensagem privada, a tentar ajudar com roupinhas dos filhos, com berços, com montes de coisas... E eu fiquei muito emocionada em ver a capacidade incrível do ser humano em fazer o bem a alguém que nunca se viu, que não se conhece... Há quem enxergue com os olhos e depois existem os outros, os que veem com o coração.

Pensei com os meus botões: "se um post no instagram do blog - que é privado - gera tanta ajuda e solidariedade... e se eu fizesse um post no blog?", para alguma coisa esse blog há de servir para além de mostrar compras, viagens e fotos de decoração, certo? :) Brincadeiras à parte, tenho combinado com algumas pessoas de ir buscar as roupinhas e doações (na área de Lisboa) e quem for de longe mas ainda assim quiser ajudar, vou disponibilizar uma morada de envio (assumo os portes e despesas dos ctt) para que possamos ajudar esta mãe a dar um início de vida para estes bebés.

Eu sei que muitos poderão dizer que ela veio porque quis, poderia ter ficado no seu país de origem, poderia ter assistência médica gratuita no Brasil, não se preveniu de uma gravidez, etc, etc... ainda assim acredito que muitos vão querer ajudar. São dois bebés que irão nascer, segundo a médica entre Fevereiro/Março (se não nascerem antes do tempo), ou seja, nascerão no inverno e não têm sequer um pacote de fraldas.

Eu já fui uma imigrante ilegal (foram só 5 meses enquanto esperava pela nacionalidade, mas ainda assim, morri de medo). Eu já vivi num quarto com toda a minha família (mais uma vez, foram poucos meses mas serviu-me de experiência). Eu já quis comprar uma carcaça no supermercado e faltou-me 2 cêntimos para a comprar (e eu não tinha mais). Eu passei por uma infância de muita dificuldade, eu já vi a minha mãe ajoelhar-se dentro de uma farmácia para conseguir medicamentos para o meu irmão que estava desmaiado numa maca, no corredor do Hospital Salgado Filho (quem é do RJ conhece de certeza). Eu sei o que é a dificuldade. E sei que só com muita luta, determinação e força de vontade é que se consegue vencer.

Eu converso todos os dias com a Joana, por telefone e pelo facebook. Eu vejo a determinação dela em dar um futuro digno para esses bebés. Eu vejo o esforço que fazem, ela e o marido, no frio europeu, sem casacos, sem mantas, dormindo num saco-cama nesse inverno. Ninguém me contou, eu vi. Eu fui até o quarto onde ela vive, um 3º andar sem elevador (tentem imaginar uma grávida de gêmeos a subir mais de 60 degraus todos os dias), eu vi a casa de banho onde ela toma banho (a água cai em conta-gotas, uma pessoa congela antes de conseguir lavar a cabeça). Ninguém me contou, eu vi.

Por isso peço a vocês ajuda: chupetas, biberão, fraldas, roupinhas de recém nascido (usada, nova, em 2ª mão, aquilo que puderem oferecer), banheira, berço, o que tiverem para bebé que não necessitem mais. Não peço dinheiro porque tenho conseguido ajudar nesse aspecto. Se tiverem conhecimentos em imobiliárias ou conhecerem alguém com um T0/T1 na margem Sul (tem que ser lá por causa do trabalho do marido da Joana) para arrendar com um valor até 250€ por favor avisem-me. Estou disposta a pagar dois ou três meses de avanço para que eles possam entrar na casa, organizarem a vida e depois assumirem essa responsabilidade. Tenho tentado todos os dias através do OLX mas só encontro imobiliárias que pedem montes de coisas que eles não têm (NIF, Nota Liquidação IRS, Recibo de Vencimento, etc), por isso teria que ser um arrendamento de um particular.

 (roupinhas que uma amiga conseguiu arranjar, chupetas e ovinhos que eu e mamãe compramos) - e é tudo o que a Joana tem para as crianças.

Eu nunca vos pediria ajuda se não fosse importante. Se não tivesse primeiro averiguado a veracidade da história. Se houvesse a menor chance de fraude. Não há. São só um casal em apuros, com dois bebés à caminho, que precisam de ajuda para dar um arranque inicial. Depois é com eles. Estão comigo nessa missão? :)

Aos interessados em ajudar, por favor, enviem um email para: anne@agarotadeipanema.com e eu partilharei o meu telemóvel para combinarmos a entrega: eu vou buscar (ou algum dos meus amigos que estão nisto comigo) ou irei vos pagar o valor dos portes para que vocês possam enviar os artigos (ou podem enviar à cobrança que eu pago cá). Combinado? Fica desde já o meu profundo agradecimento pela vossa ajuda!

(prometo partilhar fotos de todas as doações que me chegarem, bem como a actualização da história dessa mãe. Conto com vocês!)
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15 comentários

  1. Oh Anne... Obrigada por fazeres tudo isto por alguém.

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    1. Era impossível ficar de braços cruzados. Eu bem tentei, ainda pensei: "vou continuar a ajudar com a alimentação, o resto é com ela, ninguém a mandou ficar grávida e imigrar nessas condições". Sou egoísta, o meu primeiro pensamento foi mesmo esse: "não vou me meter, não tenho nada a ver com isso".

      Mas quando vi a casa onde ela vive, quando conversei com ela e percebi a situação-limite em que viviam no Brasil... comecei a ver as coisas de outra perspectiva. E não pude ficar indiferente.

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  2. Anne por as igrejas terem todas uma parte de acção social, e sou católica, é que neste momento não tenho nada para dar.
    Mas deixo uma dica, vá ao site do banco alimentar e veja as instituições que recebem alimentos na área de residência dessa rapariga. Depois ela recebe cabazes com alimentos, incluindo papas para bebés e etc. Existem também uma série de outras instituições que distribuem roupa e bens de bebê, como a ajuda de mãe.
    E depois, eles precisam de ter nif com muita urgência. Repare, onde será o parto? E gémeos por.norma necessitam de cuidados neonatais, sem nif não conseguem ir.para o hospital de referência que é publico. E os cuidados de saúde neste caso são mesmo o mais importante.

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    1. Eu compreendo, eu própria não tenho grande coisa pra doar em termos de roupas e mantas, cobertores... porque já tinha dado para a igreja no início do outono.

      A minha igreja também é associada do Banco Alimentar mas ultimamente não têm enviado grande coisa (4kg de arroz, 5kg de massa e uns pacotes de leite), julgo que tenham imensa gente para ajudar, por isso começaram a repartir mais as doações.

      Também contactei a Ajuda de Mãe e a Ajuda de Berço e ao explicar o caso da Joana, passaram-me logo para a assistente social e ela queria à força toda que a Joana fosse à maternidade do Barreiro para fazerem a ecografia e ser sinalizada pela Seg. Social, o que obviamente recusamos.

      Não queremos levá-la a nenhuma instituição pública até que ela tenha casa para viver e alguma documentação tratada, obviamente. Vamos tirar o NIF esta semana e depois logo vemos o restante das coisas.

      Tenho conhecimentos num Hospital e acredito que consiga que a recebam lá para o parto, mas só vou ter a certeza na próxima semana, quando falar com o médico. Um passo de cada vez, se for pensar em tudo o que eles precisam, fico doida! Baby steps :)

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    2. Anne quis chamar a atenção para o parto porque os gémeos são muitas vezes prematuros. E nesse caso são reencaminhados para a MAC por ser o local onde se reúnem as melhores máquinas, cuidados neonatais etc. Sei que parece muito cedo para pensar nisso, mas é mesmo muito importante.
      Em relação ao Banco Alimentar aconselho então a dirigir se directamente aos armazéns que são em Alcântara. Sei que até existe uma parte de doações de frescos, e portanto pode obter mais do que arroz.
      Entretanto se me lembrar de mais alguma ajuda eu venho aqui comentar.
      Boa sorte para esses 4!

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    3. Anne, essas instituições que mencionas quiseram levar o procedimento pela via correcta. Tens noção que, com a tua acção, podes ser acusada de auxílio à imigração ilegal, certo? A tua intenção é boa, mas tens de perceber que as coisas não são tão lineares assim e a ajuda pode ser feita, mas seguindo certas regras.

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    4. Mas eles estão legais até abril de 2017!

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    5. Na zona do Vale de Amoreira e Baixa da Banheira, ao lado do Barreiro, há casas por menos de 250 euros. Se entrares no grupo da Baixa da Banheira no Facebook encontras algumas publicações de casas para alugar ou podes publicar tu o pedido de ajuda. Tenho a certeza que receberás ajudas para a Joana. Já não é a primeira vez que algumas pessoas se juntam nesse grupo para ajudar outras incluindo o presidente.

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  3. eu já gostava muito de ti, agora gosto ainda mais hehehe

    Anne era tão bom se todo o mundo pensasse nos outros como tu pensas :)
    eu também sempre que posso ajudo. Tenho uma filhota com 8 anos e estou grávida neste momento de 4 meses de mais uma menina. Tinha emprestado muita coisa da minha filhota mais velha e estou a espera que me devolvam para a segunda. Assim que receber estou disponivel para fazer uma escolha e enviar algumas roupitas para esses bebés.

    Boa sorte para essa mamã e um bem haja para ti ;)
    Joana

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  4. olá Anne, realmente precisam de tudo, em posso fazer um donativo, como não tenho bebés poderia comprar umas roupas, no entanto, pelo que vejo, já muita gente vai doar roupa então, haveria outra coisa necessária?
    Imagino que roupa seja o mais fácil de arranjar, em que achas importante investir?
    Beijinhos

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  5. Anne, nunca comentei o blog mas não posso ficar indiferente. Tenho um filho de dois anos e estou novamente grávida! Já dei montes de coisas do meu filho e o que tenho preciso para o que está a chegar. De qualquer forma ofereço-me para comprar e dar toalhitas, fraldas e outras necessidades de supermercado (digamos assim). Como vou comprar propositdamente poderei ficar para o "fim" e aí comprar o necessário. Deixo-lhe o meu email: filipayanmacedo@hotmail.com, para que possamos falar. Obrigada e acima de tudo bonita atitude!

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  6. Anne e falar com o Gabinete da Imigriação da Câmara Municipal de residência? Não há ninguém mais habituado (e com mais recursos) para saber lidar com essas situações.

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  7. Olá Anne, não sei se tens uma lista com os bens necessários para estes bebes, para mim seria mais fácil e assim poderia comprar alguns bens de acordo com às necessidades das crianças.

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  8. Esqueci me de lhe enviar o meu contacto crjlourenco@gmail.com

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