02 fevereiro 2017

Quando uma imagem nos faz voltar a 2005...

Andava eu a passear pelo Pinterest (esse antro de inspirações) quando uma fotografia chamou a minha atenção: era um roupeiro da IKEA, chamado Vestby, e foi o meu primeiro roupeiro cá em Portugal. A minha mente voltou lá atrás, nos idos anos de 2005, recém-chegada em Lisboa com toda a minha família, todo mundo apertadinho num T0, o dinheiro não era muito (ainda estávamos a espera de vender os imóveis no Rio) e era preciso pensar em coisas práticas (e baratas) para organizar minimamente as coisas lá em casa. Um belo dia a minha mãe apareceu com 2 roupeiros Vestby da IKEA (o modelo mais rasca da loja, custou menos de 40€ e era todo em plástico e madeira de pinho - feio como o raio) para arrumarmos as nossas coisas (um para ela, outro para mim), os homens nisto são mais práticos e deixavam a roupa dentro das malas. A Vi era um bebé e felizmente o T0 tinha um roupeiro encastrado que serviu para guardar as coisinhas dela.

Quando olho para trás e relembro tudo o que já passámos, quase parece que foi noutra vida. Se eu soubesse que teria que passar por tudo aquilo, acho que tinha feito as malas e voltado para o que tínhamos no Brasil - que era uma vida muito boa. Foram 10 meses assim, num aperto daqueles. Lembro-me de querer comprar uma carcaça (que deve ser dos pães mais baratos que existem) e não ter nem uma moedinha de dois cêntimos no bolso. Nesse dia, chorei. Liguei para a minha avó e só queria desaparecer. Para a minha mãe, fazia-me de forte. Que daria tudo certo, que conseguiríamos, que a casa logo logo seria vendida e já poderíamos recomeçar a vida cá.

Sabia que ela não estava bem, tinha tomado a decisão de vir para Portugal depois de sofrer um sequestro no Rio de Janeiro e tinha desenvolvido a Síndrome do Pânico (o que, graças a Deus, curou em dois anos), por isso só podia sentir orgulho da mulher forte que ela era, que pegou nos três filhos e fez-se à vida, saiu de uma cidade violenta e sem futuro para nos dar uma vida em segurança. Que é, efectivamente, o que cada um de nós tem hoje: uma vida com paz, tranquilidade e segurança.

Quando vi a foto do roupeiro, veio tudo isso à minha mente. É feio? É horrendo mas na época era como ter o closet da Madonna e representou o esforço da minha mãe num momento difícil para todos. Quando olho para trás, sinto-me verdadeiramente privilegiada por tudo o que tive antes e por tudo o que tenho hoje.

Talvez quem leia este blog pense que a minha vida seja só futilidades, viagens, malas de marca e coisas boas. Não é. Para ter o que tenho hoje, abri mão de coisas que só eu sei, passei dificuldades que só a mim dizem respeito, tive que trabalhar em sítios miseráveis onde exploram as pessoas até o osso, tive que sorrir para gente xenófoba mas que me pagava o ordenado, tive que apanhar 8 transportes para ir trabalhar (4 para ir e mais 4 para voltar: dois autocarros, um barco e um metro), tive que vender parte das minhas jóias para ajudar a minha mãe a pagar a renda da casa num mês muito complicado (foi o auge do desespero). Enfim... já tive várias aventuras para chegar até aqui. Mas sempre tive duas coisas sem as quais nada seria possível: a minha família sempre comigo e a Fé de que nada acontece sem um propósito.

Aprendi a me pôr no lugar dos outros, aprendi a nunca desprezar o sofrimento alheio, aprendi que por um filho as mães fazem o que for preciso, aprendi que a mesma pessoa que num dia gasta 500€ numa mala no outro dia pode não ter 2 cêntimos para comprar um pão... Aprendi a dar valor a quem passa conosco em qualquer circunstância, na riqueza e na pobreza, sempre.

Para quem constantemente pergunta, não, não sou rica. Levo uma vida confortável mas estou longe de ser rica. Tenho montes de coisas que faria se me saísse o Euromilhões mas considero que não me posso queixar de nada e que tenho uma boa vida. E sou grata, muito grata por tudo o que conquistei até aqui - que ainda não é nada perto do que eu desejo mas... cada coisa a seu tempo, certo? :)

(infelizmente as pessoas têm a mania estúpida de acharem que 'sonhamos demais', que queremos 'demasiado', que já conseguimos tanto, para que desejar mais? A vida não está boa assim? - dizem-me elas. Está, pois. Mas se pode ser melhor... why not?)
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14 comentários

  1. Anne, se já te admirava antes, agora mais ainda. Tenho uma certa pena que não contes mais sobre a tua vida pessoal, sobre a empresa, como foi o processo para conseguir abrir o vosso negócio quando pelos vistos não tinham grandes condições... desculpe a curiosidade mas a tua história de vida pode servir de exemplo e de motivação para outras pessoas darem aquele passo inicial no sonho pelo negócio próprio.

    Adoro o blog, é dos meus preferidos, mas tenho saudades dos posts mais pessoais, sobre relacionamento com o M., sobre ti, no fundo.

    Pensa nisso. Um beijinho
    Claudia Semedo

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    1. Olá Cláudia! Obrigada :) Na verdade, não falo muito sobre o meu trabalho e a empresa aqui no blog porque encaro este blog como uma diversão, gosto que seja anónimo, que possa escrever as minhas palermices sem dar grandes satisfações. Se publicitasse a minha empresa cá, estava o anonimato por um fio =/

      Mas não há grande segredo. Vendemos um imóvel no Brasil, transferimos o dinheiro para cá, utilizámos uma parte para abrir a empresa, investimos o restante e assim foi. Fomos um bocadinho na mão contrária da maior parte das pessoas que abre um negócio e que geralmente recorrem à créditos bancários. Nós tivemos a sorte de ter algum capital inicial mas mesmo assim, nos primeiros 10 meses não conseguíamos tirar quase lucro algum, tudo o que sobrava era novamente investido.

      Tens razão, tenho falado menos sobre mim e mais sobre assuntos genéricos porque infelizmente tenho visto coisas horríveis na blogosfera e tenho um bocadinho de medo de expor coisas mais pessoais.

      Obrigada,
      Um beijinho

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  2. Desculpa lá, mas uma pessoa que não tem 0,10€ para comprar um pão consegue abrir uma empresa com que dinheiro, expliquem lá sff? É óbvio que a história está mal contada, só um cego não vê.

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    1. Pelo que li no post, parece-me que a Anne abriu o negocio depois de venderem os imoveis no RJ, mas so ela podera dizer.

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    2. O tempo que perdeu a digitar esse comentariozinho cheio de fel tinha-o ocupado a ler melhor o texto, é capaz de chegar à mesma conclusão que eu: a família tinha bens à venda no Brasil e aguardava esse dinheiro para se estabelecer em Portugal. Dou-lhe razão quando diz que só um cego é que não vê.


      Anne, já tinha percebido que sabia dar o valor ao que tem e isso só se consegue com a boa educação de casa e/ ou tendo conhecido dias mais difíceis. Fico contente por vós, conseguiram dar a volta às dificuldades, hoje estão bem e estão juntos. É o que importa! Acho que é por isso que gosto de ler o blog há tanto tempo. Tenho pena que desperte tanta dor de cotovelo, mas então... (posso ser muito directa?) é brasileira, bem sucedida, tem menos de 200 kgs, tem poder de compra, é feliz no casamento e no trabalho, tem uma família unida - e isso é um sapo muito grande para algumas pessoas pequeninas.
      Siga para bingo!
      Um abraço
      Paula

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    3. Paula, os comentarios "cheios de fel" que aparecem neste blog e nos outros e um retrato daquilo que existe a nossa volta e nao um exclusivo da blogosfera. Infelizmente o ser humano tem esse lado (uns mais, outros menos), so pena na "vida real" nao se poder resolver o problema com a esta facilidade: bloquer pessoas/apagar comentarios.

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    4. Bem, é tudo isso o que já disseram acima: esperamos vender o imóvel no Rio de Janeiro para poder investir parte desse dinheiro na abertura da empresa. Não compreendo essa mania de tentarem ver maldade em tudo, não se cansam? A sério, se houvesse algum motivo escuso, acham mesmo que vinha para aqui falar nisso? Dois dedos de testa, por favor.

      Cada vez tem surgido mais comentários deste estilo e começo a ficar farta. Daqui a nada começo a bater-me de maluca e não vai dar bom resultado. Quem avisa, amiga é :)

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  3. Boa noite Anne. Desculpe o comentário, é apenas a minha opinião (mas penso não ser a única a ter esta opinião). Pode não o fazer por mal (acredito que não) mas depois de tudo aquilo que posta (compras variadas, viagens,etc;) dizer que não é rica é quase que uma contradição. Para a maioria dos
    portugueses , a vida que leva (pelo menos que mostra levar) é de alguém rico. Sim, rico. Talvez a sua percepção de riqueza não seja igual à minha. Uma vida confortável levo eu (tenho dinheiro para pagar casa, contas gerais, jantar fora algumas vezes, fazer umas compras na loucura na Zara por exemplo e ainda ficar com algum dinheiro). Agora fazer viagens como faz , comprar coisas caras como mostra que compra é de gente rica. Não estou a criticar, quem me dera ser rica e poder comprar malas de 300€ , apenas já não é a primeira vez que leio a Anne a dizer que não é rica e muito humildemente penso que isso acaba por "irritar" um pouco. Pode não ser milionária, mas também não tem uma vida apenas "confortável" (pelo menos no panorama em que nasci, cresci e vivo - Portugal).

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    1. Pois de facto não tem a mesma noção de riqueza que a Anne!! Muito provavelmente outra pessoa com o mesmo poder de compra da Anne até gostasse de esfregar na cara dos outros como é rico, a Anne prefere ter humildade !!
      E sabe eu também compro calçado e malas por vezes a preços proibitivos já na roupa sou bem contida ! São gostos !!
      Viajo duas a três vezes por ano posso afirmar que vivo com bastante conforto comparado com algumas pessoas , mas não é por esta semana ter comprado uns sapatos de 175€ que sou rica!!
      A mim não me irrita a humildade da Anne, irritam me certas dores de cotovelo mal disfarçadas !!
      Ahh e pessoas arrogantes que por acharem que tem poder de compra já se acham ricas!!
      Ah e isto tudo com muita educação !!

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    2. Não é a Anne que é rica, pois como um estilo de vida idêntico ao dela conheço dezenas de pessoas e nenhuma é rica, o problema é que o rendimento médio actual é uma miséria, e qualquer coisa acima disto já é considerado ser-se rico.

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    3. @Ana Rita: Não tem nada que pedir desculpa, sendo um comentário educado, não fico nada ofendida. O conceito de riqueza é bastante subjetivo, sabe? Quando eu estava na mó de baixo, qualquer pessoa que ganhasse perto dos 500€ para mim era rico, por que, lá está, eu ganhava 200€ e tal euros. Era a minha visão naquele momento. Hoje, que ganho sensivelmente mais, acho que só é rico quem ganha mais de 10 mil por mês, por exemplo. Com certeza quem ganha mais de 10 mil por mês (tenho um amigo com esse tecto salarial, está emigrado) e ele não se acha rico, acha que leva uma vida boa mas rico, para ele só quem ganha acima dos 20 mil. Percebes a minha lógica?

      Se estivermos a falar do português-médio, que recebe, sei lá, uns 650€, que tem empréstimos bancários, que tem filhos e cujas despesas são mais que muitas, sobrando pouco dinheiro para 'estourar' em compras ou viagens, então sim, serei rica.

      Para mim, rico é quem pode se dar ao luxo de entrar numa loja realmente cara e comprar sem olhar etiquetas. Que pode tirar férias intercontinentais em resorts 5* do outro lado do mundo. Eu já o fiz, é certo, mas não todos os anos.

      Isto de medirmos a vida financeira do outro dá pano para mangas. Eu posso levar o estilo de vida que levo porque ainda não tenho filhos, não comprei casa (vivo de renda), não tenho empréstimos bancários, o meu carro foi pago à pronto pagamento (detesto juros bancários, fujo deles a sete pés). Quando vierem os bebés logo falamos se sou rica ou não :P

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  4. Tem menos de 200kg ahahahahahah muuuito bom!!!! Mas é que é mesmo, gente ressabiada, mal amada e gorda!!! Se levantassem o rabo do sofá (onde destilam veneno) faziam-se á vida e já não eram invejosas!!!!

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    1. Eu divirto-me mais a ler a caixa de comentários do que a escrever os posts! :D :D

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  5. Anónimo das 14:41 se não entende português apenas não escreva nada. Era poeta. Estou longe de estar com inveja e repito (se for preciso) o que disse anteriormente. Para mim a Anne é rica (por aquilo que mostra) (apenas o que mostra). Isso não lhe tira nenhum valor como ser humano. Anónimo das 19:55 até a entendo o seu ponto de vista mas se leu o meu comentário eu sempre me referi à realidade em Portugal.

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