19 abril 2017

A geração de iputos (sim, com 'i' de iphone)

Fui jantar em casa de um casal amigo que tem três filhos pequenos (10, 6 e 4 anos). Os miúdos são uns bombons: educados, queridos, divertidos... mas têm um 'problema': são completamente viciados em tecnologias. Eu não vou julgar nem entrar no mérito "a culpa é dos pais" por que só quem está no convento é que sabe o que vai lá dentro e com três crianças nessas idades não sei se sou capaz de apontar o dedo à mãe que chega cansada do trabalho e enquanto prepara o jantar espeta com desenhos na televisão para o mais pequeno, um smartphone para a miúda e um tablet para o outro. Sim, foi esse o cenário com o qual fui 'recebida'. Éramos quase dez amigos para jantar (foi o aniversário de um deles) e aproveitei para escapulir até onde estavam as crianças.

O cenário que vi foi de cortar o coração: miúdos tão pequenos completamente focados nos mini-ecrãs que cada um trazia na mão. Perguntei se queriam brincar e olharam-me como se eu fosse um extraterrestre. Que não podiam, estavam a jogar. Fiquei tão triste com aquilo que decidi perguntar uma última vez se queriam jogar um jogo brasileiro, que eu jogava quando era pequena. O mais novo deixou escapar, baixinho: "pode ser, estou a ficar sem bateria..." e logo vieram os outros dois.

A primeira brincadeira que me veio à mente foi 'jogo de mímica' (estou destreinada na arte de 'inventar jogos') e escolhemos o tema dos animais. Cada um escolhia um animal e depois começava a imitar os gestos (era proibido emitir sons) até que alguém descobrisse e então essa pessoa que tinha descoberto ficava com a missão de imitar outro animal... No princípio o jogo não tinha fluidez, eles pareciam nem saber bem o que fazer, demoravam imenso tempo a escolher que animal interpretar, uma seca hahaha (confesso que a essa altura já estava arrependida e pronta para lhes devolver os tablet e smartphones).


Depois que a coisa ganhou velocidade, opá, foi o máximo! Ver a carinha de felicidade deles com uma coisa tão banal não teve preço! Estava sentada com eles no chão e a certa altura a minha amiga me veio chamar para a sala, fiz menção de me levantar e o puto do meio exclamou: "ela agora não pode, não vês que estamos a brincar?!" e eu desmanchei-me a rir. Sempre que eu fazia que me ia levantar e dizia: "então vá, meninos, agora vou para junto dos adultos porque vocês têm que dormir", o pequenino dizia: "senta-te, senta-te, vamos brincar mais um bocado!".

Conclusão: não conversei nada com os meus amigos, passei todo o tempo de volta dos putos mas senti que fiz três crianças verdadeiramente felizes naquela hora e meia. Deitaram-se exaustos, transpirados de tanta macacada e ofegantes. No fundo, foram apenas crianças naquele curto espaço de tempo.

Mais uma vez, não quero julgar o tipo de educação que a minha amiga lhes dá - porque sei que, dentro das possibilidades, ela faz o melhor que consegue - mas tive tanta mas tanta pena! A infância de hoje em nada se parece com a que eu tive, por exemplo (e foi só há 20 anos). Eu pulava corda, subia em árvores, andava de bicicleta, fazia bolo de lama, escavava a terra atrás de tesouros, voltava para casa podre (joelhos esfolados, mãos todas imundas, transpirada até a raiz do cabelo...) e como fui feliz! Criança precisa disso, de ser livre, de brincar com coisas simples e infantis, não precisam ser mini-adultos, terão tanto tempo para isso no futuro...

(Um dos aspectos que mais me assusta nisto de ter filhos (tanta coisa me assusta...) é mesmo que tipo de vida os putos de hoje têm, se conseguirei que vivam em plenitude a infância, se terei a disponibilidade que eles exigem (e que, vá, merecem), uma série de coisas que me faz adiar, adiar, até a altura perfeita (que não existe, eu sei). A verdade é que a cena que vi no jantar foi semelhante a essa que ilustra o post e ficou-me gravada na mente... sei que não quero repetir algo assim com um filho meu. A ver vamos.)
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3 comentários

  1. Concordo com o que escreves e também sinto que "no meu tempo é que era". Fiz bolos de lama, cemitérios para insetos que encontrava mortos no jardim, fiz pulseiras e colares com flores do campo, corri, joguei à macaca, saltei à corda, fiz essas coisas todas de criança, ao ar livre, com primos. Hoje em dia sei que nem sempre isso é sequer possível e nada tem a ver com a educação ou desejo dos pais. A maioria das pessoas vive em apartamentos e não tem a sorte de ter avós a tomar conta deles, vão para infantários. Logo aí se perde aquela coisa do convívio com primos e facilidade de outras atividades que requerem espaço e tempo. Depois, ao fim do dia, acredito que seja muito difícil para os pais chegarem a casa, tratarem das coisas todas e ainda conseguirem levar os miúdos a dar um passeio de bicicleta ou jogar à bola. É jantar, banho e cama. E sim, acredito que por vezes seja mais simples dar-lhes as porcarias das tecnologias para os entreter. Isso e porque todos os miúdos têm, claro que qualquer puto vai querer ter telemóvel e tablet se todas as crianças amigas têm um. Faz parte do desenvolvimento tecnológico e da própria vida.

    Acharmos que era mais saudável brincar como nós brincávamos é uma coisa, achar que é possível para todas as crianças de hoje fazerem o que fazíamos antes, é utopia. A vida mudou, não é tão seguro andar na rua, nem toda a gente tem casas com jardim para os miúdos estarem à vontade, as mães trabalham como os pais e não podem ficar em casa a tratar dos miúdos e a brincar com eles, o ritmo de vida das pessoas faz com que não haja tempo para nada. Nem para ser criança! É uma pena.

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    1. Infelizmente tem toda a razão. Tenho 23 anos e uma infância marcada por todas essas brincadeiras, por chegar a casa com os joelhos esfolados, por ficar na rua até anoitecer e todas as tardes depois da escola tocar à campainha dos meus vizinhos para irmos brincar. Deixa-me tao triste ver ao que as crianças de hoje estão sujeitas... Alem de não terem a mínima noção de perigo, convívio e liberdade, são demasiado protegidas. Parece que perderam o direito a tudo o que sempre tomamos por adquirido e custa pensar que nos é que somos a exceção à regra e possivelmente seriamos gozados por não termos um smartphone com 9 anos. Mas lá está... Também não sou capaz de culpar os pais.

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  2. Ainda esta manhã me lembrei de ti Anne, quando entrei numa pastelaria para tomar o pequeno almoço e vejo um miúdo com 3/4 anos entrar com a mãe agarrado a um tablet. Foi a funcionaria pedir o bolo que queria sempre agarrado ao telemóvel.

    E sim, foi uma imagem muito triste de ver.

    Beijinhos,
    Catarina

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