24 julho 2017

Para a minha avó:

Penso em ti todos os dias. Não é uma 'frase-feita', é mesmo a pura verdade. Não há dia desde a tua morte em que não acorde a pensar em ti ou a sonhar contigo, a pensar o que tu me dirias diante desta ou daquela situação... Não há um único dia. Evito falar de ti, avó. Ainda não consigo falar sem chorar, ainda é muito recente (já passou um ano mas ainda dói como se tivesse sido ontem). Ainda me lembro nitidamente de tudo, de cada detalhe daqueles curtos 14 dias (o tempo exacto entre a tua chegada cá em Portugal e a tua partida para sempre). Sempre pedi a Deus que não te levasse embora sem que eu estivesse por perto (esse sempre foi o meu maior medo desde que saí do Brasil: receber uma chamada telefónica com a notícia da tua morte) e agradeço a Ele por ter nos dado aqueles 14 dias.

A verdade é que não soube lidar com a tua morte. Até hoje não sei. Não sei como se aprende a viver mutilada, sem uma parte nossa tão fundamental. Vive-se, é verdade. A vida não espera e nada pára por que estamos em luto. Sou feliz, na maior parte do tempo, não me deixo abater... mas todo dia, especialmente à noite, sinto a tua falta. Choro quando apetece. Vejo vídeos nossos, fotografias, cheiro a tua roupa. Sabes aquela luva azul que usaste no último inverno? Está guardada num saquinho e incrivelmente, mantém o teu cheiro ainda hoje.

Sabes, avó, perdi um monte de gente quando te perdi a ti. Perdi amigos que se afastaram, que achavam uma loucura tentarmos tantas coisas, gastarmos tanto dinheiro em alguém 'que já está no fim da vida'. Um deles disse mesmo: "a tua avó já tem 82 anos, achas que ela vai viver eternamente? Vais gastar todo o teu dinheiro num tratamento inovador que sabes que não vai resultar?". Sim, no pior momento da minha vida alguém teve a lata de me dizer isso. Cortei-o da minha vida, nunca mais lhe falei.

A família, ah, tanto haveria para ser dito, avó. Tudo aquilo que me tinhas dito, aconteceu: brigas por dinheiro, quem fica com o quê, um quer o apartamento, o outro quer a loja, uma guerra absurda. Lembrei tanto daquela frase que dizias: "Ah, no dia em que eu morrer, se começarem com palhaçada por causa de herança eu me levanto do caixão e dou na cara de um por um...". Pois é, avó, estão numa guerra. Por dinheiro. O mesmo dinheiro que não serviu para te comprar os anos de vida que eu te queria dar. Que não te comprou saúde, nem a merda da cura para o cancro. Se o dinheiro não me deu o que eu mais queria na vida - ter-te comigo por mais anos - então qual o sentido de tê-lo? Doei a herança, avó. Renunciei a tudo o que tinha por direito, eles que fiquem com tudo, precisam mais do que eu.

Sinto tantas, tantas saudades tuas. A vida continua mas jamais será a mesma. Queria tanto que estivesses aqui por estes dias. Tantas coisas novas estão a acontecer! A Vi teve a festa de formatura e encerrou mais um ciclo, estava tão linda, parecia tão adulta... Quis usar o relógio que era teu, aquele que te ofereci no meu casamento. Uma parte de ti esteve com ela naquele dia tão especial. Estarias orgulhosa da tua 'caçula', tenho a certeza. Eu estou prestes a realizar um grande sonho e queria tanto que estivesses aqui para compartilhar tudo isso comigo...   Vou te amar para sempre, avó.
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