23 outubro 2017

Filme // O castelo de vidro

Este fim-de-semana a minha irmã veio ficar cá em casa - mamãe teve um congresso fora do país - de maneira que tive que pensar em vários programas para entreter a criatura, que está naquela fase em que tudo é tããão chato, nada lhe apetece e faz sempre cara de frete. Pedi-lhe que escolhesse um filme para irmos ver ao cinema e a escolha recaiu sobre "O castelo de vidro", que me tinha passado completamente ao lado e tem uma temática que eu adoro: traumas familiares.

Quem nunca, não é? É um assunto que não abordo muito aqui no blog mas que mexe comigo até hoje. Até aos três anos de idade (altura em que a minha mãe pediu o divórcio ao meu pai), vivi situações completamente dramáticas para uma criança daquela idade, coisas que levei anos para esquecer e outros tantos para conseguir desculpar o meu pai. Hoje somos amigos mas custou tanto... fiz terapia, fui a psicólogos, revoltei-me durante um tempo, detestei a cultura árabe por condicionar tanto a personalidade dos homens (é o machismo em todo o seu esplendor) mas venci os meus traumas. Tenho cicatrizes emocionais? Muitas. Mas passei por cima delas ou jamais seria a pessoa que sou hoje: feliz e apaixonada pela vida.

Por isso identifiquei-me tanto com o filme. É um filme sobretudo de coragem. Coragem da autora, Jeannete, em expor tanto do seu eu e da sua história no livro (que foi agora adaptado ao cinema). A história centra-se na Jeannete adulta, jornalista bem-sucedida em Nova York que levou uma vida pouca tradicional em pequena: os pais eram completamente nômadas, saltando sempre de cidade em cidade, sem emprego fixo nem rendimentos, vivendo apenas de sonhos. São 4 crianças (Jeannete e seus três irmãos) abandonadas à sua própria sorte, com pais egoístas e problemáticos (roubam, bebem, não querem trabalhar) e com isso permitem que os filhos passem extremas necessidades (não têm luz ou água em casa, passam fome, não vão à escola).

A história é dramática na medida em que nós criamos uma relação de amor-e-ódio com os pais da Jeannete. Por um lado, ela vive experiências incríveis que de outra forma nunca viveria: dorme e acorda em várias cidades distintas, vive uma vida livre e "no campo", conta estrelas de madrugada deitada na relva, diverte-se à grande com o pai em situações banais (o pai é mega criativo e tem sempre uma fantasia qualquer para incutir na miúda). Mas ao mesmo tempo, são crianças neglienciadas em tudo, sofrem crueldades...

É um filme que nos fala da capacidade de sonharmos, mesmo nas piores circunstâncias. Chorei em diversas partes e revivi muita coisa. Recomendo, de olhos fechados.
  


"(...) — Escolhe a tua estrela favorita — disse o pai naquela noite. Ele disse que eu podia ficar com ela para mim. Ele disse que era a minha prenda de Natal.
— Você não pode me dar uma estrela! — falei. — Ninguém é dono de uma estrela.
— É isso aí — disse ele. — Nenhuma outra pessoa tem uma estrela. Basta você declarar que tem antes dos outros, que nem aquele idiota do Cristóvão Colombo, que declarou que a América era da rainha Isabel. Declarar que uma estrela é tua tem a mesma lógica.(...)


Trecho do livro "O Castelo de Vidro" que inspirou o filme. Nem preciso dizer que entretanto já tenho o livro (versão em ebook - gratuito na internet) e já comecei a devorar. Adoro histórias assim!
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1 comentário

  1. Nunca tinha ouvido falar mas já vi que tem potencial :) também é o meu género de filme. Não que tenha muito a ver, mas já viste o Hidden Figures? é giro e sério ao mesmo tempo, acho que ias gostar!

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