12 outubro 2017

Vocês podem não acreditar...

... mas hoje é um daqueles dias em que eu sinto, sinto mesmo, que deveria emoldurar o calendário na parede para nunca mais me esquecer do que vivi!

Sabem quando vocês têm um problema muuuuito complicado em mãos para resolver (no meu caso, algo que se arrasta há incríveis 8 anos) e que por mais óbvia que a solução seja (e é), há mil coisas que vão surgindo e que impedem o tão desejado final feliz? Eu estava numa situação dessas. Mandavam-me ir para um lado, depois era para outro, afinal é com outra senhora, agora o processo mudou para não sei quê... e eu andava ali aflita da vida a ver o tempo passar e nada de fim à vista.

Hoje era a minha última tentativa. Ou a coisa se dava ou então desistia e abria mão daquilo. Estava-me a custar muito, é algo que eu desejo concluir há 8 anos, então imaginem o meu desespero...

Cheguei na repartição pública (esse sítio que já me rendeu histórias tão lindas... #soquenao) pelas 7h30 da manhã (só abria as 9h) e já levei com 32 pessoas à frente. Espetáculo! O segurança abriu a porta pontualmente à hora marcada, lá retirei a minha senha e postei-me a frente aos balcões de atendimento para tentar perceber em qual funcionária haveria de apostar as fichas.

Não sei se utilizam a técnica, mas eu explico-vos: sempre que precisamos de alguém com competência para nos tratar de algum processo cabeludo (finanças, segurança social, sef, notários, campos de justiça, etc...), convém "escolhermos" bem quem nos calha no atendimento - acreditem, isso pode condicionar toooodo o processo. Eu faço sempre isso: quando faltam praí umas dez senhas para chegar a minha vez dou um jeito de ficar ao pé das funcionárias e ir percebendo o diálogo delas com os utentes: se são estúpidas, irónicas, prestativas, etc... dá para fazer logo um raio-x da personalidade delas.

E era a isso que eu me dedicava, enquanto analisava as funcionárias do balcão 3, 4, 5 e 6 e pensava comigo "puta que pariu se me calha a senha para o balcão 3, estou tramada", porque a funcionária era uma besta completa, estava aos gritos com um velhote que tremia enquanto entregava papéis e ela só berrava "mas você está a perceber que vai precisar de mais papéis, não está? Percebe?? O seu processo não fica resolvido hoje, vai ter que esperar e bem...". Disse para mim mesma que se me calhasse aquela gaja, eu deixava passar a minha senha para outra pessoa (afinal, temos 3 senhas de tolerância) e iria no próximo número a chamar.

Chegou a minha senha e eis que sou sorteada: calha-me para a besta da gaja. E logo em seguida, abrem os dois balcões que estavam encerrados (1 e 2) e chamam logo os outros dois números a seguir ao meu, ficando eu sem manobra de fuga. Lá me levantei e caminhei para o balcão 3 como quem caminha para o corredor da morte. "Madruguei neste sítio para isto, para ver tudo por água abaixo..."

Comecei a explicar a minha situação e vejo a gaja a bufar e a dizer que não estava a perceber nada, que aquilo era uma enorme confusão de informações, blá blá blá. Tentei ficar calma, deixei-a perceber os documentos e ler tudo com calma. Ela vira-se para mim e diz: "Em 12 anos que estou neste Serviço nunca vi um caso como o seu...." e eu quase que chorava ali mesmo, de exaustão, de tristeza, de raiva... Não podia acreditar!

Lá me recompus e perguntei se ela poderia chamar a Chefe de Serviço e explicar a minha situação, tinha que haver uma alternativa! E ela que não, que não havia nada a fazer. Resignada, preparei-me para ir embora quando ela se levantou e caminhou até a máquina de fotocópias... e eu reparei numa situação de saúde que ela tinha (que por acaso é a mesma que um familiar meu tem, que é pouquíssimo divulgado cá em Portugal, apesar de imensa gente ter... por cá só conheço um especialista nessa área). Já estava perdida mesmo, então que se lixe! Perguntei-lhe, à cara podre: "Peço desculpas, não pude deixar de reparar que você também tem XYZ... não sei se faz algum tratamento, mas tenho um familiar com essa mesma situação e depois de anos à procura de ajuda médica sem ninguém perceber o problema, só no ano passado é que descobriu..." e ela, muito espantada, diz-me que andava há anos sem saber o nome do que tinha e que sempre lhe disseram não haver tratamento, que era uma condição hereditária...

Sentou-se novamente, pediu-me que escrevesse num papelinho o nome do especialista. Senti que ganhava terreno, então continuei... Mostrei-lhe a fotografia do meu familiar, expliquei-lhe onde estava a ser tratado, dei-lhe os contactos do médico, etc, etc... Ela perguntou-me se eu não importava de aguardar enquanto ia confirmar uma situação. Foi e voltou com a notícia mais surpreendente do mundo: afinal há solução para o meu caso! Imediatamente deu entrada nos papéis (um deles tinha a rubrica da superior, a ultrapassar o tal entrave que há 8 anos ninguém conseguia) e o resto é história. No final, já me chamava "minha linda" e tudo, sob o olhar parvo dos colegas. E eu saí dali a flutuar, só me apetecia pular, dançar, gritar de felicidade.

Ponto 1: Pode parecer ficção (e infelizmente não posso pôr aqui os dados verdadeiros que comprovam a história) mas juro-vos pela minha saúde que aconteceu tal e qual vos descrevi. Ainda estou parva até agora!

Ponto 2: Não toquei na situação da doença para ser beneficiada (mas adorei que assim fosse), já estava resignada e convicta de que não conseguiria. Nem imaginam a minha cara de parva quando ela voltou lá de dentro com os papéis carimbados e rubricados, a dizer que eu não me preocupasse que já estava feito!

Ponto 3: Cada vez mais me convenço que metade dos problemas que temos com Órgãos Públicos poderiam ser evitados se os funcionários tivessem a real vontade de ajudar a resolver problemas. A maioria parece apenas querer complicar ainda mais.

Ponto 4: A minha 'cara podre' já me meteu em vários sarilhos mas nunca antes, nestes 30 anos de vida, fiquei tão feliz por ser desbocada e por falar logo o que me vêm à mente. Ganhei uma BFF para a vida! :)
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7 comentários

  1. não são os serviços públicos, são todos!
    há bons e maus profissionais em todo o lado e na função publica há gente boa, gente má e... gente doente (felizmente)

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  2. As pessoas deveriam ser boas profissionais e simpáticas por defeito, mas infelizmente não é isso que vemos (ou vemos pouco, principalmente nestes sítios). Ajuda sempre a quebrar o gelo e a conseguir a simpatia dos outros se sorrirmos, formos educados e alegres e, acima de tudo, se as tratarmos pelo nome. Já perdi a conta ao número de vezes em que alguém estava de mau humor ou a ser parvo comigo e mudou completamente quando eu, calmamente, tratei a pessoa pelo nome. Criar empatia, mostrar interesse e elogiar (verdadeiramente, não para dar graxa) também resulta muito bem. Nada nos faz sentir mais prestáveis do que alguém dizer, simpaticamente e com o nosso nome, "Pessoa x, preciso que me ajude com a situação y".

    Tenho lido alguns livros sobre estas coisas e é impressionante como resulta sempre e como melhora significativamente as interações sociais. Como li algures, "nada soa melhor que o nosso nome na boca dos outros" e tenho aproveitado isso a meu favor. Quem diz tratar pelo nome, diz este caso em que usou uma particularidade da senhora, ajudando-a verdadeiramente com um problema dela. Por princípio, qualquer pessoa tentará retribuir o favor, daí ela ter sido simpática e resolver o assunto.

    A boa educação, a simpatia, resolvem muitos problemas!

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  3. É impressionante, se não tivesses sido útil à funcionária, ela não tinha sido tão competente. É pena que alguns profissionais (e as pessoas em geral, independente/ da profissão), só se entreguem se tiverem algo em troca além do ordenado no final do mês. Característica que ao longo da minha vida, tenho experienciado com povos latinos, e nunca ou raramente com povos nórdicos. É triste, e da parte que me toca, embora estando agora a viver em Portugal, prefiro adoptar uma postura mais nórdica na forma de estar na vida, e muito na forma como me relaciono com terceiros (seja pessoal seja profissional).

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  4. As pessoas deviam ser boas profissionais em qualquer situação, e não quando podem ter algo em troca :/

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  5. Não entendo o drama com os serviços públicos. Felizmente existe um órgão governamental que resolve quaquer assunto ou problema. Éo Provedor de Justiça, faz o pedido no site que tratam de tudo. Qualquer problema é resolvido directamente entre o provedor e o serviço público, basta reclamar

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  6. Isto só mostra a falta de competência que anda por aí. Ainda bem que tudo se resolveu para ti, mas é muito mau continuar a ouvir histórias destas

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  7. Não deixa de ser triste que tenham de vislumbrar algum "ganho" para se disponibilizarem a ajudar! -.- Não acho normal, afinal é a sua função. Enfim, ainda bem que conseguiu ajudar e que a ajudassem finalmente! Até parece que lhe fazem algum favor em fazer o trabalho deles, é incrível :(

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