29 janeiro 2018

Ciganos, uma longa sina | hoje, na TVI

Os ciganos sempre me suscitaram imensa curiosidade. Quando era pequena vivia no interior do Rio de Janeiro e de vez em quando surgia uma ou outra caravana de ciganos, mas infelizmente toda a gente da cidade queria distância deles e eu não entendia. Os ciganos brasileiros são muito coloridos, vistosos, as mulheres usam saias até ao pé de diversas cores, é bastante diferente do que se passa cá. Sempre quis saber como era viver assim, sem eira nem beira, montando tendas aqui e ali, que vida estranha! Curiosa como sou, na única vez em que tentei me aproximar de um acampamento cigano (devia ter uns 6 ou 7 anos), a minha avó me pegou pelo braço e disse que eu estava proibida de lá ir porque as ciganas roubavam as crianças e as escondiam debaixo da saia ("por isso elas têm saias tão compridas") o que levou a outra situação: sempre que via uma cigana na rua, queria espreitar para baixo da saia dela a ver se via os pés de alguma criança escondida.

Cá em Portugal, assim que cheguei, notei que haviam muitas mulheres de roupa preta, cabelo comprido e super morenas. Um dia alguém me disse que eram "ciganas" e eu nem queria acreditar. Então mas e as roupas coloridas? E os vestidos giríssimos que eu via nas ciganas brasileiras? Nops, cá era tudo diferente.

Os anos passaram e eu continuei super curiosa em relação ao estilo de vida (ou vá, cultura) desse povo tão desprezado e tão estigmatizado. Se os defendo? Não mesmo. Acho até que são extremamente beneficiados em comparação ao restante do país, tendo a vida muito facilitada. Mas até hoje me suscitam muita curiosidade. Há dias falei com uma amiga cujo irmão casou-se com uma cigana e ela contou-me coisas de arrepiar os cabelos. Quando chegou à parte do "casamento" e disse-me que as miúdas casavam com 13 ou 14 anos para garantirem que chegavam virgens aos maridos e que era a mulher mais velha do grupo quem, com os dedos, rompia o hímen à noiva eu achei que já sabia demasiado. Que crueldade!

Por isso quando no fim-de-semana vi anunciar que a TVI vai fazer uma série de reportagens (4 ou 5 capítulos, acho) sobre a vida dos ciganos cá em Portugal, fiquei logo em alerta. Começa hoje e chame-se: Ciganos, uma longa sina. Das coisas que mais confusão me faz (e que duvido que expliquem na reportagem) e que se alguém aqui souber, sinta-se à vontade para partilhar:


- Os ciganos trabalham em feiras de roupa, com montes de polícias ali à volta. Se é um trabalho "ilegal" visto que não passam fatura e a procedência da mercadoria pode ser duvidosa (já vi venderem várias peças da Zara ainda com etiqueta e da nova coleção) por quê ninguém faz nada? Um fiscal das finanças? Um policial? Sei lá!

- Não entendo as bases para atribuírem os Abonos e Subsídios aos ciganos. Conheço uma mãe solteira que recebe 22€/mês de abono por uma filha e conheço uma cigana com vários filhos que recebe cheques de 600€/700€ por mês. Faz algum sentido? É pelo número de filhos? Expliquem lá.

- Sempre achei que a escolaridade em Portugal fosse obrigatória e sendo assim, como podem existir miúdos ciganos que só estudaram até ao 5º ano? Não há ninguém que fiscalize se as crianças estão na escola?

- Como é que um cigano que "supostamente" não tem rendimento fixo e recebe ajudas do Estado consegue comprar carros de alta cilindrada como já por diversas vezes vi, com Mercedes e BMW do ano? Não creio que tivessem pedido empréstimos para tal (sem rendimentos, que banco emprestaria?) logo, pagaram à cabeça... não têm que justificar de onde vem esse dinheiro?

Algum ser iluminado que elucide aqui as minhas dúvidas?
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9 comentários

  1. Andam na escola até ao final da escolaridade obrigatória. Faltam até ao limite e depois lá aparecem um ou dois dias para voltarem a desaparecer ( não querem perder os subsídios). Em geral, criam mau ambiente na escola. As "nossas" regras não são para eles, limparem o que sujaram, por exemplo, nem pensar (se forem rapazes). No entanto, estão sempre prontos para afirmar que são vítimas de xenofobia, aconteça o que acontecer, esta é sempre a última cartada. Alguns dos que conheço (rapazes) almoçam e lancham no café ao pé da escola (ficam na esplanada e, aparecem nas aulas às horas que lhes apetecer ... mas, tanto quanto sei, recebem subsídios do Estado. Vão buscá-los à escola em belos carros (aqueles que conheço)... pelo meio, ainda conseguem insultar (os progenitores) aqueles que lhes chamam a atenção por estarem mal estacionados ou por outro motivo qualquer (já assisti). E pronto, é assim.

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    1. Vá, Sandra, também não podemos nos fixar só nos pontos negativos da coisa, não é? É claro que sabemos que há muitos facilitismos no que toca aos ciganos e que também há muitos abusos mas a questão vai muito além disso.

      Concordo que a maior parte seja assim como tu o dizes (já tive alguns péssimos exemplos) mas também já conheci o lado bom de alguns ciganos e fiquei surpreendida. Como eu costumo dizer, "os bons ciganos" sofrem imenso com xenofobia, os maus estão a "cagar" para o assunto, é sempre assim.

      Não sei se algum dia a situação dos ciganos em Portugal vai mudar (as mentalidades, senhores, as mentalidades...) mas gostava muito de vê-los integrados na sociedade como todos os outros. Se um estrangeiro (como eu e como tantos) vêm para Portugal e adapta-se, faz vida aqui e leva a sua vida com normalidade... por quê raios um cigano português, que nasceu cá, é posto de lado? Dá que pensar...

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  2. Acho que a resposta eh obvia, trata-se de trafico de droga. Relembrando o famoso filme brasileiro "so existe trafico porque existe quem vai fumar a droga, nao eh?" Entao, os traficantes, esses mauzoes, existem porque ha interesse na droga (mas esses sao todos anjinhos ).
    Por favor, essa visao ...essas perguntas....sao tao simplistas de um ponto de vista sociologico que eh assustador. Por isso que um manipulador como Trumpo ganhou eleicoes, pessoas "boazinhas" votaram nele. Por isso que um Bolsonaro eh um serio candidato a Presidente do Brasil...ha quem vote.Muito triste e decepcionante ler esses questionamentos de uma pessoa que tem o sue nivel de educacao. Mas mais decepcionante eh ver esse questionamento de uma pessoa religiosa, que falta de compaixao e empatia.

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    1. Não concordo em nada com a questão do tráfico de droga, aliás, dos poucos ciganos que conheço (e com quem convivo minimamente) não me parece nada que seja essa a resposta.

      Como eu disse no post, nunca entendi a questão da separação dos ciganos cá em Portugal, o motivo de ficaram à margem da sociedade. Não nasci cá, não estudei sobre isso, tinha uma visão dos ciganos brasileiros que em nada corresponde ao que vejo cá. Como não tenho grande contacto com ciganos, é óbvio que tenho dúvidas sobre o assunto, daí o post.

      Quanto a votar em Trump e Bolsonaro, por favor... que comparação! O meu nível de educação não pressupõe que eu saiba discursar sobre todos os assuntos, especialmente assuntos que me são alheios, como é a situação dos ciganos por cá.

      E onde religião, compaixão e empatia se encaixam no meu post? Fiz alguns questionamentos, na esperança de que alguém me pudesse elucidar, julgo que não insultei os ciganos ou falei algo que ninguém soubesse... Enfim.

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    2. Muitas das grandes vidas exibidas pelos ciganos, é mesmo derivado do tráfico de droga. Muitos vendem nas feiras e são "comerciantes" mas depois têm negócios ilícitos por trás, que lhes permitem ter os tais carros, brutas casas, etc.. Outros efetivamente vivem dos rendimentos sociais e andam aí a pedir pelos cantos..mas a maioria penso que tem grandes vidas.. Fala a voz da experiência que deu aulas a imensos ciganos em prisões. Todos eles presos por burlas, tráfico droga, roubos, etc.. e todos eles têm grandes carros, casas, etc..

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  3. Olá Anne, como assistente social posso tentar explicar alguns pontos. Quando as pessoas dizem que vêm os ciganos levantar 600 e 700 euros de Rendimento Social de inserção é porque tratam-se de agregados de 9 a 10 pessoas, tudo a viver na mesma casa. Uma vez que não declaram rendimentos têm de facto direito a esse subsidio como qualquer pessoa teria. Sabemos que a história do "sem rendimentos" não corresponde de todo à realidade, mas não têm património em nome deles, não declaram rendimentos...é muito dificil provar de que estes rendimentos existem. A escolaridade é de facto obrigatória até aos 18 anos, e caso os ciganos não o cumpram são imediatamente sinalizados na Comissão de Proteção de Crianças e Jovens sendo que muitos deles são até colaborantes com esta entidade.
    Existem ainda muitas questões a serem debatidas, mas existem também muitos preconceitos que nem sempre correspondem à verdade e que não deveriam ser analisados da forma banalizada que por vezes é.
    Já agora preferia que por cá elas também usassem esses vestidos coloridos e maravilhosos. O que eu adorava a novela brasileira "Explode Coração" :P

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  4. Olá Anne, eu que trabalho numa escola, onde temos ciganos vejo que têm de frequentar as aulas até à maioridade e sim existe a CPCJ que vigia em parceria com a escola a frequência das aulas e outras situações. Quanto a viverem à margem da sociedade deve-se sobretudo a uma visão cultural que querem preservar, principalmente os mais velhos, pois vivem em clãs...em geral as ciganas são mulheres vaidosas e vistosas, aquelas que se vestem de preto deve-se à tradição do luto, assim pela morte do marido a mulher deve vestir-se completamente de preto, não sei ao certo por quanto tempo, mas também acontece com os homens, por exemplo quando os vemos barbudos e de preto, são tradições que preservam apesar de vivermos numa sociedade mais aberta. Quanto ao resto, subsídios e afins há tanta gente que os recebe sem merecer e que também andam com "grandes carros e moram em brutas casas"...é tudo uma questão de saber preencher os papéis certos.

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    1. Quando andava na escola primária, numa zona semi-rural, tive vários colegas que eram filhos de pessoas que tinham quintas e negócios ligados à agricultura. TODOS estes colegas recebiam o abono máximo, assim como tinham escalão A na escola, não pagando refeições, livros, etc. Porquê? Porque o pai declarava um ordenado mínimo e mãe estava ''desempregada''. Estes são, se for preciso, os primeiros a apontar o dedo aos ciganos, quando na realidade há por aí muito boa gente que é mais ''cigana'' do que os próprios!

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    2. Exactamente, Luísa. E as esteticistas, mecânicos, empregadas domésticas, etc? Esses e outros sectores onde os trabalhos costumam ser feitos "por baixo da mesa". Pessoas que declaram não ter rendimentos, estarem desempregadas, que beneficiam de uma série de apoios + usufruem gratuitamente ou quase de determinados bens e serviços (tipo isenção de taxas moderadoras, passe social, tarifa social na electricidade, etc) e ganham salários semelhantes aos de muitos licenciados que trabalham 12h por dia em escritórios de advocacia ou ateliers de arquitectura para ganhar 800€/mês (e esses ainda descontam). Mas depois são essas personagens as primeiras a queixarem-se de ciganos e romenos...

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