12 março 2018

Do despreparo desta gente.

Depois da experiência que tive com a perda do bebé (estou a escrever um post sobre o assunto, não sei é quando ficará concluído) percebi algo que me causou muita estranheza: as pessoas, especialmente as que trabalham na saúde, não estão preparadas para lidar com este género de perda. Não sabem o que dizer, falam asneiras até pelas orelhas, não têm a mínima noção ou preparo. Para terem uma ideia, fui ao centro de saúde (pela primeira vez nos últimos 5 anos) porque tinha o papel da baixa passado pelo médico do privado mas pensava que tinha que levar ao médico de família para ela enviar para a Seg. Social (perdoem a ignorância, esta foi a minha primeira baixa). Assim que cheguei ao centro de saúde e expliquei a situação, a funcionária do balcão ligou para o consultório da médica e disse à minha frente "pois, está aqui uma rapariga por causa de uma baixa... pois, não percebi bem... sim, foi um "desmanche" e a senhora tem uma baixa". Apeteceu-me filmar aquela merda. Um desmanche?! Um desmanche é o que se faz a um carro, para vender as peças. A minha situação não era um desmanche.

Depois que entrei para o consultório da médica, ela dispara: "ah, primeira tentativa e conseguiram logo? Têm toda a vida pela frente, são tão novos, vão ter todo o tempo do mundo..." como se o facto de sermos um casal jovem e termos engravidado à primeira alterasse o desfecho: foi um filho que perdemos, nada substituirá esse primeiro bebé. Eu devia estar anestesiada pela dor porque nem tinha força para falar, só chorava.

Dias depois, internada no Hospital da Luz, uma auxiliar diz: "sabe, triste mesmo é quando isso acontece a senhoras de 40 anos ou mulheres que estavam em tratamento de fertilidade... para elas é um choque..." Pois, imagino. E para mim deve ter feito cócegas, não foi nada um choque... Eu sei que as pessoas não falam por mal, que querem pôr panos quentes e amenizar o nosso sofrimento mas, por favor, parem! Não estão a ajudar, estão a desvalorizar a nossa perda, a fazer com que nos sintamos diminuídas no nosso sofrimento. Sim, para um médico foi um embrião de 7 semanas que se perdeu pelo caminho. Para mim e para a minha família foi um bebé que morreu, um neto que a minha mãe nunca pegou ao colo, um bebé que eu e o meu marido nunca vamos ver crescer.

Dias depois ouvi de alguém "ah mas tiveste sorte, a tua baixa foi paga a 100%". Sorte? Olhem, nem sei. Nem tenho palavras para a insensibilidade desta cena. Uma mulher que perde um bebé está fragilizada, está emocionalmente de rastos (eu fiquei), está apavorada com medo que a coisa se repeta (eu estou), já tem macaquinhos de mais na cabeça para ter que levar com frases destas. Se não sabem o que dizer num momento destes, por favor, calem-se. Essa coisa de "mas vocês são novos, vão ter mais filhos..." me dá náuseas. Já chega!

Nunca pensei, juro-vos que não. E o pior é que todas essas situações vieram da parte de mulheres, foram mulheres que me falaram estas alarvidades. Como é possível? Não sei.
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38 comentários

  1. Ninguém está preparado. Nem médicos, nem enfermeiros, nem familiares, nem a mãe que nunca chegou a ser. Ninguém. E sabes porquê? Porque não há nada neste mundo que nos consiga preparar para uma perda assim. É uma perda de alguém que já amamos e não há nenhum corpo para chorar. Precisamos de fazer um luto, mas ninguém o compreende porque não houve um funeral.

    Como sabes, eu perdi dois bebés e o mais difícil de tudo tem sido lidar com o resto das pessoas. São insensíveis, querem ajudar mas só desajudam e tenho tudo menos vontade de voltar a médicos tamanha a falta de tacto que tiveram comigo. A minha última médica chegou a dizer-me na última consulta "também foi só o primeiro, isto é muito normal numa primeira gravidez". Quando era o segundo que eu estava a perder e ela já estava farta de saber isso.

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    1. Tens toda a razão. Ninguém está preparado para isso, aliás, eu nunca pensei que isso me poderia acontecer. É parvo, eu sei, mas a partir do momento em que recebemos o "positivo" já imaginamos um bebé rechonchudo com refegos nas pernas, nunca imaginamos "um embrião com má formação", por exemplo. É típico do ser humano, idealizar, criar planos, expectativas...

      Vais rir mas acreditas que só agora é que percebi que a "rapariga com quem falo no whatsapp" afinal és tu e tens um blog hahahaha eu não sou desse mundo, a sério. Que despistada!

      Temos que ter fé que não se irá repetir novamente e nunca, nunca desistir. Se é o que queremos, temos que ir à luta. Eu estou cagadinha de medo mas vou em frente, não há quem me pare. Vai dar tudo certo numa próxima, vamos acreditar (e procurar um novo médico, já sabes).
      Beijinhos

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  2. Quero acreditar que as pessoas não dizem estas coisas com maldade mas sim porque acham que essas palavras vão ajudar a dar algum conforto e esperança ou só mesmo porque não sabem o que dizer. Não justifica as barbaridades ditas, obviamente, mas gosto de acreditar que é mesmo despreparo e não maldade.

    É difícil saber o que dizer em situações destas. O melhor conselho para quem não sabe o que dizer é sempre ficar calado. Ao menos não dizem asneiras, não pioram a situação. Mesmo que a intenção fosse boa!

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    1. Eu também acho que não dizem por mal (se achasse o contrário já tinha mandado muita gente à merda) mas a questão é que soa muito mal para quem está sensibilizada com o facto. Agora confesso que já não me magoa mas na altura foi terrível de escutar.
      Obrigada :)

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  3. Ola Anne,
    Lamento a sua perda.
    Perdi três bebés e sabe o que até hoje mais me chocou?
    Estar na sala de espera do Hospital da Luz, num tormento sem fim, ao lado de grávidas felizes da vida com as suas proeminentes barrigas e como barulho de fundo o som do CTG.
    É lamentável a falta de cuidado e de separação de ambientes nestes casos.
    Desejo-lhe as maiores felicidades.
    C.

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    1. Olá, lamento muito, ninguém nesse mundo merece passar por isso três vezes. Espero que estejas bem agora :)

      Sim, eu também reparei nas grávidas na sala de espera mas eu estava tão anestesiada pela dor que nem tive esse pensamento. De facto, poderiam pensar numa área mais restrita para estes casos. Uma amiga grávida de 36 semanas descobriu que o bebé estava morto na barriga e teve que fazer parto normal na MAC... ao lado das grávidas que pariam bebés a chorar. Nem quero imaginar a dor!

      Obrigada e muita sorte :)

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    2. Olá!
      O termo correcto em que me encontro é desgosto para o resto da vida. Vive-se mas não se esquece.
      Obrigada e felicidades para si.
      C.

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    3. Olá C.

      Espero de coração que ultrapasses, talvez com a chegada de um novo bebé para encher o teu coração de alegria e amor. É um trauma, é uma situação que nos marca mas temos que acreditar que não vai ser "para o resto da vida". Temos tantas coisas boas para viver até o fim da nossa vida, será que vamos optar por viver agarrada ao sofrimento? Desejo que a vida te sorria muito daqui para a frente :*
      Muitas felicidades
      Um beijinho

      (se quiseres falar ou trocar ideias, o meu email é anne@agarotadeipanema.com)

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    4. Olá Anne,
      Muito obrigada pelas tuas palavras.
      Não vivo agarrada ao sofrimento (sou bem disposta e vivo muito bem a vida) mas não há dia que passe que eu não pense como seria a nossa vida com um dos nossos anjinhos que partiu.
      No meu caso é para o resto da vida porque deixei de ser fértil. Tarde demais. Não há nada a fazer.
      Por isso, digo-lhe para não perder tempo nem a esperança e tentar sempre, sempre e sempre.
      Agradeço ter-me disponibilizado o seu email. Muito obrigada. Quem sabe um dia entro em contacto consigo.
      Beijinho e muita, muita, muita força.
      C.

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  4. Eu fui diagnóstica com uma doença genética há 9 anos e por isso desisti de ser mãe para não andar a engravidar, fazer testes e ter que abortar. Não tenho capacidade emocional para abortar(muitas vezes mais que uma vez) devido a uma doença genética. Boa sorte e espero que corra tudo bem. Quanto à insensibilidade do atendimento hospital é geral. Quando estamos frágeis qq palavra que nos faça lembrar ou menosprezar a nossa dor, ficamos revoltados mas o melhor mesmo é não termos expectativas e exigirmos apenas boa educaçao. Acho que todos já nos sentimos menosprezados na secretaria de um hospital/centro de saúde. Beijinhos.

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    1. Olá,

      Imagino o quão difícil tenha sido tomar essa decisão mas se realmente for um objectivo de vida, já pensaste em realizar uma FIV com selecção de embriões? Já há quinze anos, quando a minha mãe fez a Inseminação para engravidar da minha mana existia essa opção: seleccionar geneticamente embriões sem má formações e doenças genéticas. Não sei se será o seu caso, mas se for mesmo um grande desejo, porque não se informar sobre o assunto? :)

      Por acaso eu nunca me tinha sentido menosprezada antes num hospital, foi a primeira vez e logo num péssimo momento para mim. Mas já passou, ficou para trás e vida que segue.
      Um beijinho :*

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  5. Olá Anne. Sou estudante de enfermagem e acredite, esses casos que relatou é tudo o que nos ensinam que não deve ser dito. Entendo que por vezes profissionais de saúde dizem isso para tentar ajudar e não por maldade mas continua a não fazer sentido. Como já disseram aqui em último caso mais vale ficar calado. Nada do que se possa dizer vai mudar o que está a sentir, é o seu bebé, a sua primeira gravidez, não é dizer que vai poder ter mais filhos que vai minimizar a sua dor porque é este o presente que está a viver.
    Acredito que seria mais importante para si ouvir de um profissional de saúde que está a viver uma situação marcante e poderá contar com ele para tudo o que precisar, que nunca estará sozinha.
    Por isso aqui vai um beijinho enorme com muito carinho para si Anne

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    1. Pois, imagine que não seja esse género de situações que aprendam na universidade de saúde mas infelizmente acontece e muito. Tanto no público (centro de saúde) como no privado (H. da Luz), aconteceu comigo... Mas também me caiu mal pelo estado em que eu estava (aterrorizada), se fosse hoje talvez só desse de ombros e não me afectasse tanto.

      Muito obrigada pelo carinho e tenho a certeza que será uma excelente enfermeira, sensível e humana como nós merecemos :)

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  6. As pessoas sinceramente ! Por vezes ganhavam mais em ficar caladas -_-

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  7. É típico do tuga: aconteceu-te uma desgraça? Deixa lá, podia ser pior. Ou então: ah aconteceu-te isso? Deixa lá que à prima do vizinho do amigo do 3º andar aconteceu pior. Como se costuma dizer: não é defeito, é feitio.

    Um abraço bem forte Anne

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    1. Hahahaha não pude deixar de rir mas realmente, existe uma tendência a encontrar sempre alguém cuja desgraça seja muito maior, numa forma de nos fazer sentir melhor. Acho que não fazem por mal, é mesmo um hábito muito enraizado. E não são só portugueses :)
      Obrigada e um beijinho

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  8. É triste de tão verdade.
    Perdi 3 bébés,sendo que uma das gravidezes era gemelar.
    Sei do que fala.
    Escutei,na dormência da dor,horrores.
    Alarvidades...mesmo vindas de uma professional (?!) da área obstétrica e responsável de serviço:
    " Fez O aborto porque quis ? "
    WTF ?
    6 da manhã...hemorragias...desfeita em lágrimas porque era o MEU bėbė perdido aos 3 meses de gestação...assim...do nada.
    Insensibilidade a transpirar por cada poro.

    Coragem. Férias. Amor.
    Vai correr bem.

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    1. Lamento muito.
      Aos três meses então, ninguém merece isso.

      Obrigada pelas palavras, neste momento estou muito tranquila, já tenho todos os resultados dos exames, já sei o que se passou, já tenho carta branca do meu médico e estou mesmo aliviada, é o que sinto. Agora estou a focar-me na casa, na mudança, nas decorações... e quando acontecer, aconteceu. Deus é que sabe :)
      Um beijinho e toda a sorte do mundo :**

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  9. Essa mania do "tuga" ter os defeitos todos,também já enjoa!!Já conviveu com pessoas de outros Países?Pois...

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  10. Desculpa mas n posso concordar. Não diminuo a tua dor em nada, EM NADA. Mas não te podes querer comparar com esses exemplos. És nova, foi a primeira tentativa e felizmente tens uma vida confortável que te permite fazer exames para perceber o que se passou e tentar contornar algumas situações.
    Não é comparável com a maioria das situações, não é.

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    1. Foi a primeira vez e tem meios e posses para conseguir despistar tudo e mais alguma coisa. E também acho sinceramente que toda a história principalmente no Instagram já é de mais, porque a verdade é uma, é preciso continuar.
      Todavia, ninguém tem de ouvir os improperios que os outros dizem sem qualquer tipo de sensibilidade.
      Mas isto não é exclusivo dos portugueses e é importante salientar isso.

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    2. Eu não acredito que estou a ler tal comentário de uma mulher, é chocante, e vais juntar-te ao leque de pessoas que realmente mais valia estarem caladas.
      Independentemente do facto da Anne ser nova e ter condições económicas para poder fazer exames e tentar saber se há algum problema que ela possa controlar, nada mas nada lhe retira a dor eterna e o sofrimento, bem como nada lhe vai trazer consolo por não poder ver esse filho crescer, por não poder ter esse filho nos braços, e por ter todas as ausências dele na vida dela para sempre.
      Eu tenho sérios problemas para ultrapassar, já perdi vários bebés, preciso de tratamentos de ponta para engravidar mas nunca iria diminuir a dor da Anne ou de outra mulher na situação dela, pique essa dor, cara Ana Rita é vitalícia e instala-se em nós até ao fim dos nossos dias, o tempo só ajuda a conviver melhor do que ela.

      Não digas o que disseste à Anne à mais nenhuma mulher, nunca mais, porque isso é de uma insensibilidade desumana. Mãe nenhuma se sente menos sofrida por ser nova, por ter condição financeira para fazer exames, ou por conseguir ter filhos mais tarde, porque ainda assim ela vai chorar os que perdeu. E quando tiver os braços ocupados ainda mais vai ter noção do que perdeu com os outros. Conheço uma senhora de 90 anos que tem dois filhos e perdeu dois bebés, já é avó e bisavó, mas ainda hoje fala dos bebés dela, sente a falta deles, fala deles e reza por eles, por isso, não repitas de todo estas palavras, que não devem ser ditas a ninguém.

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    3. Cara Anónima das 12.19h eu não o disse à Anne como não o diria a nenhuma mulher. Isto é uma conversa aberta a várias opiniões. E se é esta a minha opinião é porque passei por ela e felizmente foi ultrapassada com a vinda de dois bebés (gémeos). No momento que se engravida tudo passa tudo para trás tem outro peso. Fica a experiência e só. Isto não é desvalorizar. É percebe-la e pedir-lhe para n se comparar por exemplo com a anónima. Cada um tem a seu dor. Ponto.

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    4. É compreensível que nem todas as pessoas entendam. Para mim, que tenho horror à ideia de engravidar e para quem a interrupção voluntária seria o caminho escolhido, um embrião não seria um bebé. Agora, uma coisa é o que sentimos, outra é acharmos que todas têm que sentir o mesmo, principalmente mulheres que querem muito ser mães e já veem aquele embrião ou feto como um filho.

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    5. Olá Ana Rita, obrigada pelo comentário. Tens toda a razão, não me posso comparar a mulheres de 40 anos em tratamento de fertilidade, mas ninguém pode mensurar o choque que eu e a minha família tivemos com essa perda. Ninguém na minha família teve abortos espontâneos (e somos muitas mulheres com muitos filhos), ninguém estava à espera desse desfecho, eu nunca tive problemas de saúde, era o primeiro filho, primeiro neto de ambos os lados, não há palavras para explicar o quão devastados todos ficamos. O fato de eu poder fazer estudos genéticos e exames não altera nada do que aconteceu, nem apaga o meu sofrimento. Sim, talvez eu "sofra menos" porque tive recursos para ser acompanhada por ótimos especialistas, em hospitais privados de referência mas... não posso deixar de ficar incomodada ao ouvir certos comentários de profissionais da saúde. Assim como eu, outras mulheres passam por isso todos os dias e já chega.

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    6. Anónimo 12:15 - Achei piada ao seu comentário e me dei ao trabalho de ir ao instagram contabilizar quantos posts é que já fiz sobre o assunto este ano. E pasme-se, de Janeiro a Março (3 meses, portanto) fiz 4 posts a falar sobre o assunto. Acha que "já é demais?". Eu não acho. E um dos posts foi para alertar sobre o erro de um exame num laborátorio de referência, para que mais ninguém passe pelo que eu passei.

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    7. Anónimo 12:19 - Deixaste-me emocionada com o comentário. Fico tão feliz quando encontro alguém que, mesmo sem conhecer, consegue interpretar e traduzir em palavras aquilo que eu penso/sinto nesse momento. Um grande bem haja e muito obrigada, de coração. Um grande beijinho :*

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  11. Anne é triste mas as pessoas são assim. Eu em tempos perdi os "meus bebés" numa gravidez gemelar com 21 semanas. Tive que fazer parto na mesma e ainda hoje dizem-me barbaridades como "deixa lá...era um trabalhão, logo dois". Sem palavras.

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    1. Olá Paula, lamento muito, nem consigo imaginar a tua dor. Com 21 semanas já são autênticos nenucos perfeitinhos, dá imensa tristeza imaginar alguém a perder dois filhos desta forma. As pessoas não têm sensibilidade alguma, é desesperador.

      Que a vida te sorria de agora em diante, toda a felicidade do mundo!
      Um beijinho

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  12. Anne

    Lamento muito a tua perda, e lamento muito que tenhas ouvido tais barbaridades dos profissionais com quem te cruzaste, há pessoas muito despreparadas para esta área.
    No meu caso foi ao contrário, tive mais humanidade e sensibilidade dos profissionais do que da família, e isso então, é horrível. Dos profissionais tive respeito, empatia e solidariedade, os meus bebés não foram tratados como um número mau na estatística obstétrica, foram bebés (filhos) que perdemos. Já para a família foram só fetos ou embriões, consoante o tempo de gestação, disseram que eu tinha de esquecer porque não era a única mulher do mundo a passar por isso, e que fetos e embriões não são bebés. Tive de fazer vários lutos ao mesmo tempo, o dos meus filhos e da tomada de consciência de que não podia contar com a família.

    Fico de coração quente de saber que tens todo o apoio familiar que necessitas, e que a tua mãe sente a perda como ela o é, de um neto que ela não vai ter nos braços. É muito bom que tenhas esse apoio porque te dá bons alicerces para poderes aprender a viver com a dor. O amor ajuda a curar e tu vais ganhar força, coragem e esperança em Deus para voltares a tentar. Nunca vais esquecer, mas também vais aprender que o amor não se acaba porque houve uma separação física, o teu amor por esse bebé é eterno e ele vai senti-lo, esteja onde estiver, e tenho a certeza de que a tua avó está a cuidar bem dele por ti.

    Muitos beijinhos e força.

    P.S.: Não desistas, fizeste muito em ir trás de respostas, porque elas podem existir, e sabendo o que está mal, podes lutar contra isso.

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    1. Olá minha querida, muito obrigada pelo carinho e pelo comentário, encheu-me o coração de alegria. Lamento muito que também tenhas passado pelo mesmo e principalmente, que não tenhas tido apoio familiar. Posso te dizer que sem os meus não sei como teria passado por isso (especialmente a minha mãe e o meu marido, que foram incansáveis). Agarra-te às pessoas da família que se importam contigo e com os teus bebés, o resto tenta abstrair porque não vale a pena o desgaste num momento tão delicado.

      Eu passei Janeiro e Fevereiro a fazer mais exames do que já fiz em toda a minha vida: análises hormonais todas as semanas, exames ao útero, estudos genéticos, análise à reserva ovárica, tudo o que possas imaginar... e finalmente tenho uma resposta para o que aconteceu. Estou tão aliviada! Pelo caminho mudei de médico e encontrei um profissional tão fantástico que só me apetece encher de abraços: alguém que me entendeu, que me "pesquisou e estudou" e que me traçou todo um plano para que nada falhe da próxima vez (vamos jogar à defensiva, como ele mesmo diz). Estou muito segura e bem mais tranquila :)

      Muito obrigada de coração
      Um grande beijinho

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  13. Anne, um bebé que se perde às 7 semanas é a natureza a fazer a sua selecção natural. Com certeza o embrião tinha um problema que o impediu de se desenvolver e formar um bebé saudável, por isso, custa, custa muito, sim, mas é o melhor que podia ter acontecido com aquele bebé.

    E eu digo isto porque passei pela experiência de perder um bebé às 8 semanas, que me custou muito, como é óbvio, mas depois o que passei na gravidez seguinte, em que tive que interromper uma gravidez de 20 semanas por má formação incompatível com a vida, não tem qualquer comparação.

    Se a natureza tivesse sido sábia e tivesse feito o seu trabalho antes, eu não precisava de ter passado pela pior experiência da minha vida: ter de interromper uma gravidez muito desejada, com todo o sofrimento e angústia que passei até ao momento em que o pior se confirmou.

    Por isso, Anne, as nossas dores não podem ser comparadas com as dores de outras mães que perderam os seus bebés, seja em que fase for, mas, e arece muito duro ouvir isto, perder um bebé com 7 semanas de gestação é o melhor que podia ter acontecido àquele bebé e até à Anne.

    Dizem que tudo de mau que nos acontece é por uma razão e que um dia mais tarde vamos perceber qual foi essa razão. Para mim, a perda do meu embrião às 8 semanas eu entendo desta forma, não evoluiu mais porque não era um bebé saudável, a natureza resolveu. Só estou ainda à espera de entender porque é que a minha bebé, que evoluiu, cresceu e parecia tão perfeita, afinal tinha uma má formação incompatível com a vida, apenas detectada na amniocentese. Isto que a natureza não resolveu e deixou para eu tratar é não sei se um dia vou conseguir entender porque é que me aconteceu....

    Coragem, não desista, vai correr bem.

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    1. Sim, no meu caso foi mesmo uma má formação e sim, claro que é preferível perder às 7 semanas do que depois. Lamento muito a sua perda, que desgosto. Tenho consciência de que perder um bebé noutras fases avançadas da gravidez deve ser insuportável e muito mais difícil de ultrapassar.

      Entretanto, na minha próxima gravidez já pedi ao meu médico que me faça o exame às 8 semanas para analisar possíveis más formações e síndromes (tenho o nome do exame apontado na agenda, agora não me recordo) só por medida de segurança. Acho que se chama Harmony, se não estou em erro. Você chegou a fazer a biópsia ao feto para perceber se havia trissomias ou outras alterações cromossómicas?

      Obrigada e tudo a correr bem para ti :*

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  14. Lá Anne,
    Sei exactamente do que falas pois o ano passado também passei por uma perda e como eram 3 bebés ficou mais claro motivo da perda até porque já tinha feito vários exames antes de tentar. Mas como revés imaginar ouvi de tudo, desde: "que tive sorte porque eram 3"(a sério que se diz a alguém que perdeu 3 bebés que teve sorte), "que sem qualquer tipo de ajuda conseguir 3 não era normal" (sim sem tratamentos, ajudas ou casos na família e eram 3 já faz de nós uma anormalidade) como vês penso que toda a gente que perde um bebê deve passar por esses tristes comentários.
    E agora a parte mais feliz estou agora de 21 semanas de um belo menino e até ver tudo normal. Portanto acredita que tudo vai correr bem e quando menos esperares mais estar como teu/tua bebê nós braços.

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    1. Olá,

      Que tristeza, sinto muito... Perder um bebé já é duro, quanto mais três. Sim, julgo que esse género de comentários é bastante comum quando acontecem coisas destas, as pessoas falam por simpatia mas não percebem que fazem muito pior.

      Parabéns pela nova gravidez, que esse menino veio cheio de saúde para deixar o coração da mamã a palpitar de felicidade.

      E tenho fé e coragem, vou em frente, custe o que custar (e custa, porque estou cheia de medo mas a vida acontece para quem não desiste).
      Um grande beijinho :***

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  15. Ao ler o teu post, fez me recordar tb pelo que passei. Custa muito, e nunca esquecemos.
    Ja tenho um filhote de 8 anos( tive 2 anos ate conseguir engravidar), e agora tenho outro menino de 1 ano. Antes de ter o meu mais novo, tive um aborto retido... so descobri qd ia fazer a primeira ecog. das 12s, foi um choque grande. Vi logo que alguma coisa nao estava bem pq nao se via nada, e um bebe de 12 semanas ja se ve tudo.
    Chorei mt, tambem ouvi mts comentarios mt desagradaveis... Mas penso que as vezes as pessoas dizem sem maldade.. Tive a sorte de apanhar uma enfermeiras mt porreira, e muito humana. Foi uma semana dificil, tive que tomar os comprimidos pr expulsar mas nao consegui e tive que fazer raspagem. O bebe vinha com deficiencia. Passado um ano voltei engravidar :) :). Muita forca...

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  16. Ninguém pensa que os profissionais de saúde também têm de se resguardar?

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